Variações & Experimentos

Devaneios de uma razão em sua menoridade…

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Cat Stevens – The first cut is the deepest

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A primeira ferida pode ser a mais profunda, mas não a mais doída; pois a dor não é profunda, no mais das vezes é apenas uma tentativa frustrante de colocar alguns sentimentos dentro de uma cadeia de causa e efeito: pateticamente postulamos uma metafísica sentimental. É preciso ter muita memória para ser um sofredor, uma chaga viva, que pensa nas condições de possibilidades para um certo estado de coisas não ser o que é, querendo que assim o fosse – aquele suspiro que diz: “imagina se…”. A profundidade, nesse sentido, só pode ser como um corte de punhal, que cortando em doses homeopáticas, torna a dor sempre constante e presente: insana lembrança de um passado que jamais cicatriza.

Escrito por marcosgoulart

18/01/2009 em 1:53 pm

Passeando…

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Quando parei pra pensar nas palavras que não falei nos momentos que eu quis, fugi de mim e fui para além de um jardim – Sérgio Sampaio concordaria comigo. No silêncio dos meus pensamentos, por mais que haja um amor, um “meu amor” aqui em mim, que diga o que devo sentir, me canso… Sinto que deveria passear à maneira de Belchior, e gritar “meu amor, meu amor”, mas a vida não é uma canção e tampouco as pessoas admitem um convite, um “vamos andar?”, pois elas estão pisando firme e forte nos seus próprios sentimentos, dizendo apenas milhões de talvezes… Reduzir a vida a um mero talvez é abrir mão de toma-la para si, e fazer dela um objeto de arte, uma bela obra de espiritos fortes. Assim, só resta-me alegrar-se com o brilho elétrico de uma cidade em “festa”, que brinda a loucura e silencia os seus sentimentos… me dá vontade de gritar e fugir no disco voador, meu amor.

Sugestões: Passeio (Belchior) & Muito Além do Jardim (Sérgio Sampaio)

Escrito por marcosgoulart

21/08/2008 em 4:08 am

Publicado em Experimentos

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Discreto Stonehenge

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O mundo e as suas constantes tribulacões nos deixam cada vez mais isolados em nós mesmos. Tudo que se apresenta enquanto possibilidade de futuro se obscurece ou se transforma em uma imensa frustração. Não fazemos o que queremos, julgamos a priori que nada vai dar certo antes mesmo de fazer. A solidão é voluntária, as palavras são em vão e os amores passageiros… Somos pedras frias, fadadas as nossas próprias razões e preconceitos. Todo sentimento é estranho, todo passo adiante é amedrontado – um medo de repetirmos o nosso passado, que nada mais é do que frustração fossilizada no coração. Vamos montando em nós mesmos uma grande muralha sem forma, de pedras, de ausência de sentimentos, com a certeza de que jamais cederemos, jamais quebraremos o que temos como certo: pedras passadas e certeza nenhuma.

Escrito por marcosgoulart

26/05/2008 em 5:14 pm

O inaudível

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Tantas vezes tentei mudar meu o mundo, assim como mudamos de roupa. Tantas vezes recitei mantras e mais mantras atrás de uma nova possibilidade, de uma nova maneira de lhe dar com aquilo que inquieta o meu corpo e que se faz suspiros e sorrisos contidos. O meu silêncio diante dos meus sonhos – que insisto não existirem -, talvez expliquem aquilo que não vivo dentro de mim. Um homem assim como eu, que de palavra em palavra silencia pensamentos, sentimentos, jamais terá um mundo diferente do seu, pois nada é real nesse mundo onde o que somos são apenas as nossas palavras que dizemos e nada mais. Que o silêncio do corpo não diga nada, que o suspiro de paixão seja um olhar em lágrimas diante de quem se ama… para mim, seria vão qualquer talvez, porém, se a vida for assim? Talvezes e mais talvezes diante de tudo? Suportaria até mesmo mais uma vez, e outra e mais outra, mesmo assim, salvo esse impulso de coragem, seria inaudível qualquer suspiro de despedida.

Escrito por marcosgoulart

11/05/2008 em 11:49 am

Da Solidão

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Ouvindo “How Deep is your love” do Bee Gees – uma ótima música para se ouvir caminhando com a mão no bolso contemplando a “fumaça” da nossa respiração em uma noite de frio (a estética de Porto Alegre) -, no caminho de casa, me peguei pensando sobre a solidão. Essa palavra tem em si um peso, algo que nos causa um imenso medo, pois ninguém, aparentemente, quer estar só. Mas por que o medo da solidão? Não sei… Por um lado, Nietzsche nos faz refletir sobre isso. Para o filósofo alemão, os Espíritos Livres, os Filósofos do Futuro, sabem ser só, eles são por inteiros somente em sua solidão, que para o filósofo quer dizer interioridade, conhecimento de si mesmo, mascarando-se do mundo; o filósofo do futuro é para si uma coisa muito diferente do que é para o mundo, pois a opinião do outro é sempre um equívoco e ele, o filósofo solitário, regozija-se disso. Nesse caso, o filósofo só pode ser feliz em sua própria solidão. Entretanto, essa solidão não significa isolamento, a solidão do filósofo é a solidão em meio a multidão, é sentir-se único e, portanto, é amar-se a si mesmo. Um outro filósofo alemão chamado Erich Fromm, admite, falando de amor, que “só pode amar quem sabe ser só”, isso vai ao encontro daquilo que Nietzsche fala, pois só se pode amar aquele que ama a si mesmo – amar a si mesmo é ser livre, liberdade para Nietzsche é ser responsável por si mesmo. Ora, aquele que ama a si mesmo não quer usar o outro como meio para se perder, se aliviar, se alienar, muito pelo contrário, amar a outra pessoa é achar-se nessa pessoa, mas para isso, é preciso um reconhecimento de si mesmo, é preciso aquela solidão nietzschiana. Ao meu ver, é preciso desmistificar o problema da solidão, saber ser só é saber viver consigo mesmo. O desespero por companhia, o desespero por “amor”, é  uma fuga de si mesmo, é ter medo de se conhecer… Portanto, corrigindo os termos, esse desesperado não é ser só, mas ser sozinho: simplesmente pequenininho perdido em seu desespero.

Escrito por marcosgoulart

08/05/2008 em 1:22 pm