Posts Tagueados ‘poetry’
Deserto…

No deserto de uma folha em branco faço-me por inteiro: Canto com os cantos infinitos brancos, que de tão brancos silenciam ventos – tempestades de areia em um coração de andarilho. Quando fecho meus olhos, me faço sombra em um sombrio deixe estar. Meu nome talvez jamais seja sussurrado, mesmo sendo o vento do meu deserto infinito. Sinto o cheiro de nada que se aproxima de mim, as palavras não fazem sentido, mesmo sendo eu e uma suposta amada nativos silenciosos desse deserto preenchido liricamente por uma folha em branco.
Entre o Bem e o Mal
Há uma enorme contradição quando não podemos ter a pessoa que queríamos ter. O ser amado é objeto de um conflito de nossa razão, pois sofremos por ele e ao mesmo tempo o fim do sofrimento é ele – estando tanto para o inferno quanto para a redenção. Na distância que guardamos dele – como diz Barthes – “nos exilamos em nosso próprio imaginário”: deparando-se com um sentimento de impotência perante a vida, tentamos apagar a chama que queima, e em cada tentativa notamos que o fogo aumenta e queima ainda mais… Na alma daqueles que tiveram um amor não correspondido há uma linha tênue que separa o céu do inferno, mas não sabemos onde é o início e o fim de ambos, diante disso, em um silêncio profundo num tempo que não passa, equilibramo-nos em uma corda estendida entre o nosso amado e o nosso próprio exílio: entre imagens ideais e fugas desesperadas.
Diversos amores
A construção subjetiva que temos de um suposto “ser ideal”, talvez seja apenas a tentativa de amar a si mesmo através do outro: o amor enquanto reconhecimento de si. Quando não nos reconhecemos mais no outro da relação nos sentimos traídos, o amor acaba, a dor chega; mas o tempo tende a passar, a vida sempre segue o seu rumo, e logo logo estaremos nos reconhecendo em um outro que não sabemos qual – uma nova vida, um novo amor, uma nova disposição. É estranho… Sentimo-nos tristes ao ver a alegria daquele que se ama, queríamos no fundo que ele sofresse tanto quanto nós, e isso é o amor – um pouco de ressentimento. Mesmo assim, com uma dose de estoicismo, deixamos o tempo passar e o sentimento abafar, precisamos odiar, nos sentir injustiçados, sem saber o que fazer, para depois revermos tudo como um bom tempo que passou, depois que o amor passar…
O último silêncio
De um lado para o outro suspirava palavras que não conseguia dizer – elas vinham de assalto e de mim se faziam roubadas, como a água que se perde entre os dedos de quem quer agarrar. Além de mim, transparente se fazia, via tudo que murmurava no meu peito: um coração inquieto, um amor em silêncio, um beijo interminável, um momento quiça oportuno, sei lá, tudo silenciava… essas paredes, que barreira é essa? Mera conveniência… Não fosse o último silêncio, me faria onda sua, e nas indas e vindas, beijaria a tua alma: sempre perdida na ilusão do doce mar. Pois então cala-te, não fale mais no meu peito, sinto ódio, raiva de ti que não existe, que bifurca o meu destino toda vez que estou diante de um longo horizonte… estou cansado, estou com sede; por favor entenda isso: o meu silêncio é transparente!Relações com o outro
The Beatles – The Fool On the Hill
Voando por sobre o tempo e glorificando a sua impotência perante o seu destino. Apossa-se de sua alma a saudade de um futuro: sempre e sempre o que ainda não há, pois mesmo não sendo, lá é melhor. Quem é esse homem que brinca com o tempo e que vive em si mesmo as suas primaveras e seus invernos? Quem é esse homem que repousa na distância entre os seus olhos e o horizonte? Para a paz consigo mesmo é preciso algo forte: um amor qualquer ou até mesmo uma revolução… Na saudade do que virá, uma canção aos seus ouvidos: doce pretexto para justificar a sua vida “forçada” por um destino escrito por um deus qualquer.
Cartas Desesperadas…

Uma carta tem como fim expressar o sentimento de angústia de não poder falar aquilo que se quer para alguém. Pelo fato de pressupor uma distância relativa a dois sujeitos, uma carta sempre vai querer dar conta de vários fatos – se possível todos – vividos em uma pequena parcela de tempo. A razão de uma carta é sempre o encanto, é receber a visita de alguém distante, que apenas diz: “Veja só, eu ainda estou vivo e lembro de ti… Veja só como eu estou… Ainda lembras de mim?”. Só é sincera aquela carta enviada sem ser passada a limpo, pois ela reproduz exatamente o diálogo – a voz é a caneta que transita pela folha de papel. Aquele que não envia cartas já escritas se perde em uma idéia maluca de ao mesmo tempo querer ser o sujeito que escreve e o que receberá, transferindo a sua imagem e consciência para um outro, e portanto, sendo a medida de todas as coisas… Quem não envia cartas já escritas tem a pretensão de sentir – tentar – aquilo que o interlocutor sentirá… Em um mundo que a tecnologia substitui o encanto, uma carta enviada para alguém dizendo apenas: “Oi, tudo bem?”, já guarda em si mesmo uma imensa beleza – a expontaneidade expressa em uma folha de papel -, e para o nosso mundo cada vez mais racional-tecnicista, uma carta escrita nesses moldes tem em si mesmo algo de revolucionário.
Porto Alegre, 14 de Abril de 2006.
O que fazer em caso de incêndio?
Ele mal pôde expressar o que se passava em sua cabeça – cenas de filmes, músicas, bebidas, mulheres, telefones que não tocam, etc e tal. Há sempre uma angústia, há sempre algo que jamais pode ser alcançado, pois se assim não fosse a vida em nada teria graça, seria apenas uma simples sucessão de fatos-fracassos. Em sua mente as palavras de um mestre alemão “Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo?”. Além do mais “Um coração que se encheu como um aterro… um trabalho que te mata lentamente, feridas que não cicatrizam. Você aparenta estar tão cansado-infeliz. Derrube o governo, eles não, eles não falam por nós. Eu vou levar uma vida tranqüila…”. São tantas palavras que transitam por dentro de sua pobre alma… Ainda ontem, ao ver um extintor de incêndio explodir, viu naquilo uma sinfonia da lembrança e tomou para si os seus conflitos… Viu todo um projeto se destruir em dois minutos e ao som de uma canção, sentiu lágrimas resfriarem o seu rosto, viu-se tão só como nunca antes visto. Pegou alguns livros na estante – aquele seu Zaratustra de outrora já não lhe fere tanto, aquele “recompensa mal um mestre aquele que se contenta em ser discípulo” é tão frio, tão “ideal”. Quis correr para longe de tudo, serviu uma dose do bálsamo que anestesia todo o seu viver… O mundo gira e as canções se repetem, os beijos são tantos e sempre o mesmo, a alegria é trago ou tragada, e a poesia é aquela vazia, dita em vão, que expressa apenas… Nada. Gritos e mais gritos, palavras para consigo mesmo, paredes frias que fazem tudo ecoar… Vê em si um peso, uma filosofia vã e barata que nada diz, apenas impressiona ouvidos pedantes… A sua mão, os seus olhos, a sua alma – Tudo queima! Mas o que o que fazer em caso de incêndio? Deixou-se queimar…
Livres citações de Schopenhauer, Radiohead e Nietzsche.
Eclipse
Apagaram o silêncio profundo da Lua, e o barulho do sangue brotando encheu um espaço demais cheio, e pingou… Tomam forma como palavras que não são ditas e que ecoam nos copos vazios preenchidos pelo líquido da insensatez – o que é isso? Não sei… O que é isso!? A noite chama, seu clamor faz chorar, faz viver e amar, seu clamor faz sofrer… viver – Faz devir, faz merda, continuando silêncios profundos preenchidos pelos gritos: as gotas tão tímidas… o vivido.Strawberry Fields Forever

As minhas últimas palavras diante de um olhar apaixonado soaram estranhas, quiça sem sentido… no peito, no meu inquieto coração. Aparentemente não há nada de real nas minhas lágrimas, pois elas simplesmente são efetivações dos meus sonhos – é nesse mundo irreal que me torno tranqüilo, postulo planos, metas, objetivos quaisquer… Nem todo fundamento do amor está nos sentimentos que nutrimos por um ser qualquer, nem toda lágrima é presença de alguém em nós mesmos, nem tudo é o que achamos que deveria ser; é preciso ter em si um certo ar de “deixe estar” e descer profundamente na dor, na ausência e no frio… É assim que a ausência se transfigura, se torna vermelha, se torna sangue, se torna espírito. A força do ausente é habitar a alma de alguém para ser ocupação de apaixonante e dor de apaixonado.
