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Posts Etiquetados ‘pedantism’

A virtude de um banco

A definição de virtude de Aristóteles, aretê, nos soa estranho no mundo em que vivemos. Segundo o filósofo, virtude é o desempenho excelente de uma determinada função, ou seja, no caso do homem, a sua virtude é o excelente desempenho da razão. Mas se a nossa reflexão se voltar para os objetos do mundo, o que teríamos? No caso de uma faca por exemplo, diríamos que a sua virtude é cortar bem? No caso de um copo de água, seria matar bem a sede? E no caso de um banco? Qual a virtude de um banco?… A resposta não é tão simples. Seria o sentimento de conforto daquele que senta? Se for isso, poderíamos qualificar um banco virtuoso a partir do seu encosto, da altura que fica as pernas dobradas até o chão, altura das pernas do banco, altura do encosto até a base do tronco, etc; teríamos assim um banco virtuoso. Entretanto, a simples visão de um banco não é suficiente para determinar a sua virtuosidade. É preciso sentar, deitar, experimentar… alguns minutos, algumas horas. A simples dor nas costas, nas pernas, ou em outra parte do corpo, já é suficiente para tirar o estatuto de virtuoso de um banco. No entanto, a virtude de um banco, depende de quem senta: pessoas com bico-de-papagaio não estariam aptas para determinar a virtude de um banco, pois a dor nas costas já está pressuposta. Portanto, um teste perfeito, passaria por uma condição perfeita de nossa coluna vertebral. Ultimamente não tenho percebido bancos virtuosos, nos ônibus as minhas pernas ficam apertadas, na frente do computador o meu pescoço fica “levemente” declinado, o suficiente para me causar dores nas costas, ou seja, não há bancos virtuosos para mim. Contudo, bancos de praças geralmente nos proporcionam belas visões, bancos de ônibus não, pois o máximo que podemos sentir é um excitação ao ver o contorno entre o pescoço e o ombro de alguém, mas eu não sou o anjo de “Asas do Desejo”, nunca morri de amores por uma nuca ou um pescoço. Por isso, prefiro os bancos de praça. Nesse caso, a virtude está nos olhos de quem vê, que percebe que diante de si há algo interessante, portanto, nenhuma dorzinha nas costas é suficiente para tirar a virtuosidade desses momentos de fuga do tempo e contemplação.

Michel de Montaigne – Ensayos

Este es un libro de buena fe, lector. Desde el comienzo te advertirá que con el no persigo ningún fin trascendental, sino sólo privado y familiar; tampoco me propongo con mi obra prestarte ningún servicio, ni con ella trabajo para mi gloria, que mis fuerzas no alcanzan al logro de tal designio. Lo consagro a la comodidad particular de mis parientes y amigos para que, cuando yo muera (lo que acontecerá pronto), puedan encontrar en él algunos rasgos de mi condición y humor, y por este medio conserven más completo y más vivo el conocimiento que de mí tuvieron. Si mi objetivo hubiera sido buscar el favor del mundo, habría echado mano de adornos prestados; pero no, quiero sólo mostrarme en mi manera de ser sencilla, natural y ordinaria, sin estudio ni artificio, porque soy yo mismo a quien pinto. Mis defectos se reflejarán a lo vivo: mis imperfecciones y mi manera de ser ingenua, en tanto que la reverencia pública lo consienta. Si hubiera yo pertenecido a esas naciones que se dice que viven todavía bajo la dulce libertad de las primitivas leyes de la naturaleza, te aseguro que me hubiese pintado bien de mi grado de cuerpo entero y completamente desnudo. Así, lector, sabe que yo mismo soy el contenido de mi libro, lo cual no es razón para que emplees tu vagar en un asunto tan frívolo y tan baladí. Adiós, pues.

De Montaigne, a 12 días del mes de junio de 1580 años.

O eclipse do filósofo

filosofo afodado
Em dia de eclipse, onde o pensamento se vê derrotado diante da intransponível obviedade, o melhor que temos a fazer é afogar o filósofo que insiste em ecoar em nosso ser…
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Michel de Montaigne e o Pedantismo

Michel de Montaigne

No texto chamado “Do Pedantismo”, Michel de Montaigne busca refletir acerca da distinção entre erudição e sabedoria; o que pode parecer um pouco estranho, pois geralmente elas não parecem ser coisas distintas, ou seja, uma pessoa sábia é uma pessoa erudita. Contudo, essa distinção parece ser bem clara para o filósofo francês, se entendermos erudito como alguém que apenas domina um conhecimento, alguém que apenas ostenta o conhecimento como um bem cultural – uma bagagem cultural como normalmente as pessoas dizem. Nesse caso, portanto, aquela educação que tenha como fim apenas a retenção de conhecimento – apenas encher a nossa “bagagem” – seria uma educação pedante, visto que, não nos tornaria homens melhores, não nos prepararia para a vida.

 

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Pela Crise da Educação

pela crise da educaçãoDesde que a minha prática de ensino em filosofia terminou, sustento a tese de que todo o ensino institucionalizado é pedante, e que qualquer tipo de educação que se pretenda libertadora deveria renegar a função da escola, isto é, da “educação” para a constituição de uma sociedade mais justa. Primeiramente, gostaria de dizer que tomo como “ensino institucionalizado”, todo o tipo de ensino que tem como eixo sustentador o Estado, tendo em vista que, esse ensino nada mais faria do que legitimar uma série de discursos que servem muito mais para conformar os alunos a uma vida em sociedade, pautada por leis criadas por políticos profissionais que fingem agir conforme a “razão do povo”, razão essa que se curva a qualquer peça de retórica barata, pois convence na medida que promete.

Ora, pedantismo para mim é não tomar as rédeas de sua própria vida, é abrir mão de agir como um ser político, para se afogar em conteúdos, que mais nos ofusca a visão do que nos faz enxergar em nós mesmos o poder de transcender a mediocridade da vida cotidiana. Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI, define o conhecimento pedante como aquele que nos torna mansos, corcundas, que ostentando o conhecimento apenas como um adorno, fala demais daquilo que não tem utilidade para a vida prática – muito do que se faz em filosofia hoje em dia, talvez pudesse ser classificado como pedantismo, mas isso não vem ao caso. O que serviria então para a vida prática? É uma resposta difícil, pois preparar os alunos para melhorarem de vida, incluirem-se em uma “sociedade mais justa”, em si, já é um preparo para a vida prática; entretanto, essa “vida prática” precisa ser relativizada, ela está inserida em um determinado contexto, nesse caso, no nosso contexto, prepara apenas algumas poucas pessoas e os outros, a maioria, ficam a margem esperando ou torcendo pelo fracasso daqueles poucos, ou seja, viver bem para alguns ainda implica na impossibilidade de uma vida boa para outros. Portanto, a formação dos alunos, que desde o início da escola já é pautada na quantificação, na produção, na competição, já afirma que somente poucos vencem: os melhores. Ora, se somente os melhores vencem, se dão bem na vida, o que resta para os piores? Podemos ver, com isso, que o discurso que diz que a escola prepara seres humanos para uma vida em sociedade mais justa é uma farsa, pois ainda se fundamenta no sucesso e no fracasso.

O próprio movimento de um aluno, problematizando essa situação, a sua relação com a escola, se questionando o porquê de haver um professor em sua frente proferindo verdades, para mim, é um movimento de quem, ao renegar a função da escola, abre mão de ser pedante, apenas se atrevendo em ir além… Problematizar a sua própria condição de aluno e a utilidade do conhecimento – o conteúdo da escola – para a vida, já é uma fuga do pedantismo.

Essa fuga do pedantismo, entretanto, não pode ser fruto de uma conscientização de um professor, como se o professor tivesse iluminado a cabeça do seu aluno, muito pelo contrário, deve ser um movimento de alguém que não suportando uma determinada situação, se põe contrário, nega para afirmar a si mesmo – a afirmação de si mesmo é a constante da vida. Portanto, ao meu ver, é preciso que notemos essa crise da educação, dos alunos que “bagunçam”, como a negação do velho e a afirmação do novo. Talvez uma outra racionalidade, uma outra maneira de lhe dar com as coisas esteja surgindo; é uma crise de valores sim, mas de pessoas que tiveram a coragem de questionar e ir além desses valores que sempre foram dados como verdadeiros – os jovens, os alunos, se deram ao luxo de questionarem a Verdade e quem somos nós para negarmos isso? Portanto, ao negar a instituição escolar, os alunos estão negando o pedantismo, pois pretendem transcender os limites das “quatro paredes do conhecimento”, não querem carregar aquilo que para nada serve, e estão instituindo uma outra maneira de lhe dar com a educação – para os problemas que teremos não há soluções prontas, basta deixarmos os nossos pedantismos de lado e vivermos a crise sem teorias a priori, que nada mais são do que preconceitos genéticos que habitam o nosso milenar sangue cristão.