Posts Tagueados ‘nietzsche’
Paradigma Ético-Estético e Filosofia da Diferença
Abordar em nossa apresentação o Paradigma Ético-estético e a Filosofia da diferença pode parecer uma tarefa fácil, já que não podemos negar a influência desse paradigma em nossas formações enquanto mestrandos. No entanto, por conta dessa grande influência, não é difícil cairmos em um discurso fechado, pouco crítico e com clichês, onde o mesmo se apresenta enquanto única maneira de pensarmos o mundo, ou seja, perdendo os diversos nuances e diferenças que os outros paradigmas podem nos trazer enquanto produção de conhecimento. Assim, cairíamos no problema da recognição, onde, como afirma Friedrich Nietzsche em sua “Gaia Ciência”: “conhecer é tornar familiar”. É claro que o filósofo alemão está fazendo uma crítica à noção de conhecimento tal qual o homem criou para si, onde não há o estranhamento, muito menos produção do novo, mas o mero reconhecimento, onde achamos aquilo que nós mesmos escondemos. Portanto, pensando novamente em nossa apresentação, podemos dizer que fazer o elogio àquilo que a primeira vista nos constitui e não nos colocarmos a navegar em mares estranhos, seria abrir mão de uma filosofia da diferença, ou seja, uma contradição na nossa tarefa, sendo essa perspectiva que torna essa apresentação um tanto quanto difícil.
A natureza da obediência: entre La Boétie e Nietzsche
Gostaria de iniciar a minha apresentação dizendo que tomarei como base dela o próprio “Discurso da Servidão Voluntária” do La Boétie e o aforismo 199 do “Além do Bem e do Mal” do Nietzsche. Também é importante dizer que o trabalho deve ser tomado pelos ouvintes como um exercício analítico extremamente limitado, isto é, restrito apenas aos conceitos em questão explicitados nos textos citados. Portanto, não me importa tanto o que Nietzsche diz em toda a sua obra acerca da natureza obediência, mas sim, o que é dito naquele aforismo. Dito isso, posso iniciar falando sobre o título desse trabalho, que se não fosse a delimitação dos textos, seria muito pretensioso. Isso se deve à falta de clareza acerca das definições de obediência, tanto para Nietzsche quanto para La Boétie. Primeiramente, é preciso usar a palavra “natureza” com muito pudor, pois ambos os filósofos, não só por viverem em épocas diferentes, tomam o termo natureza de maneira distintas. Para La Boétie, natureza é a expressão daquilo que é necessário, não só na forma de um domínio divino, mas também na forma de como os homens são, ou seja, há claramente em La Boétie a apresentação de uma natureza humana relacionada diretamente com a obediência, ele se pergunta: por que obedecemos/servimos e o que é natural obedecer? Em Nietzsche, por outro lado, se tomarmos o aforismo que será base da minha apresentação, natureza é cultura, é aquilo que é cultivado: na medida em que cultivamos determinados modos de vida, tornamos aquilo natural e necessário. Nietzsche parece não tomar o conceito de natureza como um ordenamento da existência para além da vida, ao meu ver, natureza para Nietzsche está próximo daquilo que é chamado pelos psicólogos sociais de modo de subjetivação, ou seja, na medida em que vivemos de determinada forma, percebemos o mundo, agimos conforme uma certa subjetividade. Leia o resto deste post »
O Lugar do Poder: Leituras de Étienne de La Boétie
Oswaldo Giacóia Júnior sobre Nietzsche
Nós, os eruditos?: Reflexões sobre a filosofia
A filosofia de Nietzsche é tida como uma crítica radical à cultura ocidental, cultura que, segundo ele, é fundada sobre bases metafísicas que legitima-se a partir de um julgamento sobre a vida. Esse julgamento, segundo ele, não é imparcial, é sempre de uma determinada perspectiva; sendo assim, conceitos como “bem” e “mal” por exemplo, fundados a partir da reflexão de um filósofo jamais representariam algo universal, isto é, algo válido para todos os homens em todos os tempos, o que para o filósofo alemão nada mais seria do que uma típica doença crônica da filosofia: a pretensão de se colocar na perspectiva da eternidade1. Nesse sentido, para Nietzsche, a reflexão moral de qualquer filósofo representaria apenas uma forma de vida, a afirmação de um modo de ser, que deve ser pensado dentro do seu próprio contexto; portanto, a tarefa filosófica por excelência seria analisar a teoria moral de um filósofo a partir de algumas questões: “A que moral ele quer chegar? Que modo de vida ele quer afirmar? Que forma de vida ele levou?”2.
Essa tarefa posta por Nietzsche à filosofia, tornaria a psicologia3 não só uma ferramenta, mas um elemento essencial para a realização de seu projeto. Ainda assim, contudo, fica implícito que Nietzsche não quer pensar a psicologia como uma ciência tal como hoje conhecemos, muito menos pensar que esse tipo de reflexão tornaria a filosofia desnecessária; não obstante o filósofo ter se vinculado às idéias positivistas em um determinado momento de seu pensamento. A filosofia, para ele, precisaria sim de um antídoto anti-metafísico, que a desvinculasse de idéias como absoluto, coisa em si, alma, mundo inteligível, etc; visto serem criações filosóficas, que não podem ser postas a partir da racionalidade humana, pois ela é essencialmente parcial, diz sempre respeito a uma perspectiva, a um modo de vida4, que por ser apenas um modo, não pode ser universal. Com isso, parece que a psicologia teria, para o filósofo alemão, a função de avaliar os comportamentos quase sempre infantis e pueris5 de todo o filósofo que se colocou para além da experiência sensível; colocando-se como um sarcástico e irônico psicólogo, que anuncia: “Vejam só, tudo isso não passa de um devaneio de uma razão em sua menoridade, coisa de criança6“.
No capítulo de “Além do Bem e do Mal” intitulado: “Nós, os eruditos”, Nietzsche faz uma crítica a cultura de sua época e ao espírito cientificista, denunciando que a filosofia estava sendo engolida pelo enorme edifício das Ciências, tornando a filosofia apenas um estágio anterior ao estágio positivo7, ou seja, a filosofia seria apenas uma passagem, um hall de entrada para aquele enorme edifício. Assim, Nietzsche propõe que o filósofo deveria buscar uma maneira de se afirmar diante desse espírito objetivo, se colocando não como uma base da ciência, mas um determinado tipo de reflexão que colocasse a própria ciência e o espírito objetivo em questão – se colocando para além dela, o que seria uma tarefa difícil que exigiria grande esforço filosófico, tendo em vista que
O edifício das ciências atingiu altura e dimensão tremendas, e com isso cresceu também a probabilidade de que o filósofo se canse já enquanto aprende, ou se deixa prender e “especializar” em algum ponto: de modo que jamais alcançará a sua altura, a partir de onde seu olhar abrange tudo em torno e em baixo. Ou chega demasiado tarde lá em cima, quando já passaram seu momento e seu vigor; ou chega debilitado, embrutecido, degenerado, de forma que seu olhar, seu juízo global de valor já não significa muito. Precisamente a finura de sua consciência intelectual o faz talvez hesitar e atrasar-se no caminho; ele teme a sedução de tornar-se um diletante, criatura de cem pés e mil antenas, sabe muito bem que quem perde o respeito por si mesmo já não pode mais, também como homem de conhecimento, comandar, conduzir (…). (Idem, p. 95)
Ora, fica claro aqui que Nietzsche traça um perfil psicológico do filósofo diante do espírito objetivo do seu tempo, dizendo que diante da tarefa de lhe dar com a ciência há tamanhas dificuldades: uma é cansar-se, visto que a ciência se dá em uma imensidade de ramos e especializações que tornam “impossível” uma visão de totalidade diante dela, um juízo global, como ele mesmo diz; e outra que diz que quando um filósofo consegue se colocar acima do edifício da ciência, ele já perdeu todo o potencial juvenil e criativo da filosofia, de forma que toda a ação diante desse edifício seria somente contemplativa e, portanto, fraca e cansada – contemplação significa covardia. Entretanto, fica evidente aqui que a filosofia está totalmente vinculada à moralidade e que as nossas posições diante das coisas para serem afirmativas, precisam ser efetivas, isto é, afirmar-se na vida. Destarte, não parece que Nietzsche quer propor uma guerra contra a Ciência, mas sim, colocar uma questão de maior amplitude, dizendo que a ciência, assim como a filosofia, seria apenas uma interpretação do mundo: o mundo transfigurado em mundo humano. Seria tarefa do filósofo, portanto, refletir sobre a vida e o valor da vida (Idem, p. 96), não de maneira meramente contemplativa, mas como que um antropólogo que ao falar dos homens não “vê de longe”, ele sente as angústia e estranhamentos no próprio corpo; seria essa a crítica quando Nietzsche diz que a filosofia não pode se reduzir a uma “teoria do conhecimento”: a uma reflexão sobre as nossas possibilidades de conhecer, pois isso seria abrir mão de viver e abster-se contemplativamente – a solidão do filósofo em sua torre de marfim.
A crítica de Nietzsche se voltaria, em relação a ciência, ao impulso objetivista dessa, que de alguma forma traria alguns avanços pois se voltaria para as coisas no mundo, a interpretá-lo a partir da própria experiência, sem precisar fundar-se em uma subjetividade anterior, aos moldes de Descartes que precisa provar que pensa para poder dizer que as coisas existem no mundo. Assim, para o filósofo alemão
O homem objetivo é de fato um espelho: habituado a submeter-se ao que quer ser conhecido, sem outro prazer que o dado pelo conhecer, “espelhar” – ele espera que algo venha e se estende com delicadeza, para que nem mesmo os passos leves e o deslizar dos seres espectrais se percam sobre a sua pele. O que lhe restar ainda de “pessoa” lhe parece casual, não raro arbitrário, com freqüência perturbador: de tal modo se tornou reflexo e passagem de formas e acontecimentos alheios. Às vezes volta o pensamento para “si”, com esforço, de maneira freqüentemente errada; confunde-se facilmente com outros, equivoca-se quanto as próprias necessidades e apenas nisso é tosco e negligente. (Idem, p.98).
Nietzsche afirma que o homem objetivo neutraliza-se na medida que se torna “manso” na relação de conhecimento, visto que ele conhece o objeto de conhecimento a partir de como o objeto se reflete nele, ou seja, o relação de conhecimento não é afirmativa pois apenas interpreta o mundo sem instaurar nada nele. O cientista acredita que pode conhecer tudo através do seu método, porém, todo o conhecimento que ele toma pra si, se dá na tranqüilidade daquilo que ele próprio pode conhecer, ou seja, quando se olha naquele espelho, ele apenas vê o que quer ver. Assim, o homem objetivo seria como que um operário do conhecimento, que trabalha sem uma vontade própria, um escravo do seu senhor: um método para chegar à Verdade. Esse tipo de homem, ainda vinculado à idéia de que há uma verdade a ser descoberta no mundo, difere daqueles filósofos metafísicos somente do fato de não postularem idéias ou abstrações baratas; não obstante isso, eles passam a perder-se em um ideal metodológico que passa a constituir aquilo o que eles são: diversos cientistas pensariam iguais, pois teriam um método em comum; portanto, os cientistas, os homens objetivos, mesmo sendo “eruditos”, permanecem no espírito de rebanho.
O filósofo alemão, como podemos perceber, não dirá que os juízos sobre a Ciência são falsos ou verdadeiros, não é essa a questão, o que importa para ele, voltando as questões iniciais do texto, “a que moral eles querem chegar?”. Se por um lado, os homens objetivos se tornam o rebanho e, portanto, perdem sua singularidade; por outro lado, os filósofos, tais como Kant, Hegel, Platão, Schopenhauer, que nada mais são do que “crianças filosofando”, por não terem ido a fundo e terem postulado uma verdade transcendente por negação do sensível, ainda são personalidades, singularidades, ou seja, refuta-se o sistema hegeliano, mesmo assim, Hegel permanece. Quero trazer com isso, que o homem objetivo, vinculando-se a métodos com fins de descobrir a verdade, perde toda a sua singularidade e pertence a uma massa de intelectuais, um rebanho apenas acima do povo, visto que em uma hierarquia dos conhecimentos, eles estariam acima; mas esse acima, seria apenas um mero refinamento da mediocridade.
Nós, os eruditos? É uma questão interessante para se colocarmos pois diante do estatuto do nosso conhecimento, o filosófico, o termo erudito é quase que um sinônimo aplicado ao filósofo; contudo, se pensarmos na idéia de Nietzsche, do homem objetivo, o erudito, podemos pensar que o que fazemos em filosofia hoje em dia nada mais seria do que fazer parte do Edifício das Ciências. O filósofo8 se torna especialista, não tem um juízo global diante de todo o conhecimento, ele não fica cansado, ele já é cansado – não é à toa que a vida contemplativa é o ideal de qualquer filósofo. Além disso, a filosofia “precisa” constantemente se afirmar para além do empírico, para poder constituir o seu próprio ramo de saber: um lugar inabitado; e as outras ciências, por outro lado, precisam constantemente se emancipar de qualquer ligação com a filosofia, a filosofia seria para elas uma doença que ninguém quer pegar. Assim, a filosofia em grande parte se transformou em uma certa “teoria do conhecimento”, sempre voltada para as condições de possibilidade da nossa vida cognitiva. Entretanto, não me parece que isso poderia ser diferente, pois soa com muita ironia pensar em ser como um filósofo enciclopedista do século XVIII, aquele tipo homem – talvez muito mais criativo que a gente -, que cria um mundo para si e dentro desse mundo cria um sistema de regras e significados para explicá-lo, pois toda a nossa imaginação e potencial criativo se perdeu no ideal de objetividade – com um método não precisamos criar mais nada.
A reflexão de Nietzsche, portanto, anuncia o nosso tempo, voltado para métodos objetivos e a uma crise na filosofia, que necessita constantemente se afirmar para provar a sua utilidade, coisa que raramente acontece – não é raro alguns filósofos dizerem que a filosofia não tem utilidade e se regozijar disso. Nós, filósofos? Se torna uma questão muito sarcástica, que nos deixaria em sérios apuros. A filosofia necessita de um “futuro” tão distante. Nietzsche o anunciou há aproximadamente 122 anos atrás e provavelmente muitos ainda irão anunciar. Assim, para finalizar, propomos uma última questão: Será possível em algum futuro novos Hegel, Kant, Nietzsche, Descartes, Platão e Heidegger? A minha resposta é: “Não”; mas quem sou eu para dizer isso? Apenas mais um homem objetivo, mais um na massa de eruditos que habitará aquele Grande Edifício Objetivo.
REFERÊNCIAS:
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: Prelúdio de uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
____________________ Humano, demasiado humano: Um livro para espíritos livres. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
1Humano, demasiado humano. p. 16.
2Além do bem e do mal. p. 12.
3Tomo o termo psicologia como uma reflexão acerca dos modos de viver do homem, isto é, de como o homem age em função de uma moralidade; mesmo sabendo que o conceito de psicologia para Nietzsche seja muito mais amplo. Assim, creio que a perspectiva de psicologia para Nietzsche se aproxima muito mais de uma Psicologia Social, voltada para a reflexão de como os homens agem a partir de uma moralidade da cultura, e não uma psicologia que se preocupa com o “eu” de cada um em si mesmo, visto que para o filósofo isso seria mera superstição. (Idem, p.22)
4É claro que podem surgir questões como: E a perspectiva de Nietzsche não é apenas de um modo de vida também? Mesmo assim, é muita ingenuidade desconsiderar a sua posição com a acusação de relativismo, no entanto, não é nosso interesse discutir epistemologia aqui.
5Idem, p. 11.
6No texto chamado “Resposta a pergunta: O que é o esclarecimento?” de 1784, Immanuel Kant diz que os homens em seu tempo estavam em uma época da menoridade da razão, mas que estavam se encaminhando para o esclarecimento, portanto, para uma maioridade. Nietzsche, ao meu ver, coloca a sua filosofia nessa tradição, sendo assim, um sujeito na maioridade da razão.
7Dentro da perspectiva positivista de Auguste Comte, a evolução do pensamento se daria em três estágios: o estágio teológico (busca de uma razão em divindades); estágio metafísico (busca de uma razão em um mundo inteligível ou absoluto – aqui se encaixaria a filosofia que Nietzsche critica) e estágio positivo (busca de uma razão objetiva, isto é, através de experimentos científicos).
8Filósofo no sentido acadêmico, de estar vinculado à instituições de ensino.
Crianças Invisíveis
“[...] Eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças (mas poucas se lembram disso)”. (O pequeno Príncipe – Saint-Exupéry)
Esse manhã assisti um filme que me fez pensar bastante na criança que um dia já fui, criança essa que corria pelas ruas da Restinga, que jogava bolita, que dava os seus primeiros passos no devir mundano: aprendia a mentir, a passar os outros para trás; mas não deixava de ser criança. No entanto, com quem ela aprendia isso? Eram as regras do mundo!? Esse menino aqui, fugia toda a vez que sua mãe o chamava para tomar banho, ou para varrer o pátio… Às vezes ela pegava algumas varinhas de chorão… – “Xiii… Isso doía muito!”. Chorava muito quando não tinha o que queria, mas brincava, tão sério, tão maduro, tão intenso, tão por inteiro, constantemente em conflito: quando o mundo lhe cobrava uma certa seriedade, preciso era ter sempre razão, sempre vencer, sempre se dar bem… Desse tempo, o que ainda resta? Não sei ainda o que há de natural nesse homem, o que se perdeu e o que permaneceu; contudo, “eu fico com a pureza da resposta das crianças” como diz Gonzaguinha, talvez seja a resposta mais sensata… Assistir à diversas infâncias, mas ver nelas pontos comuns – o espírito simples, a brincadeira, a vida por inteiro, me fez pensar no que somos: será que somos crianças e as crianças são os adultos? Será que elas são aquilo que deveríamos ser? Que mundo é esse que construímos para nós mesmos? Definitivamente, a criança é simples e inteira por “natureza”… A cada dia mais me convenço de que Jesus estava certo: “Deixe vir a mim as criancinhas, pois é delas o reino dos céus”; contudo: por que não tornamos esse reino dos céus o nosso mundo? Reaver a maturidade infantil que deve estar perdida em alguma parte do nosso corpo… “viver e não ter a vergonha de ser feliz!”… “Quando era criança era tempo dessas perguntas: Por que eu sou eu e não outra pessoa?”, o que perdemos? O que queremos? Para onde vamos? Talvez, por deixarmos de nos fazer essas perguntas, tenhamos construídos esse mundo tão frio e técnico que apreende os nossos corpos… Para as crianças, nós adultos, damos a indiferença e a razão de presente, e tornamos elas cada vez mais invisíveis.
Curso sobre Nietzsche Ministrado pelo filosófo Oswaldo Giacóia Jr.
Estou disponibilizando a gravação de um curso que participei ministrado pelo professor Oswaldo Giacóia, sobre Nietzsche, que foi ministrado em Porto Alegre/RS, no mês de julho de 2007.
Clique nos links abaixo:
Esclarecidos?
No dia 5 de dezembro de 1783 Kant escreve um texto chamado: “resposta a pergunta: O que é o esclarecimento?”, onde ele afirma que o homem vive em sua menoridade da razão por culpa própria, por não ter coragem de levar a sua razão até o limite, a ponto de não depender de mais ninguém para pensar e, por isso, para agir. O esclarecimento é a liberdade do homem quando encarna em si mesmo a razão de ser por si só. Segundo Fichte, outro filósofo alemão, e que foi aluno de Kant, o filósofo de Königsberg foi a “Razão Pura Encarnada”. É bom lembrar que Kant foi o filósofo que acabou com a metafísica racionalista, após o filósofo a pretensão de provar a imortalidade da alma, a existência de Deus e a liberdade com argumentos que desprezem a experiência sensível, não podem ter qualquer pretensão científica, pertencem somente a ordem da razão, ou seja, não podemos conhecer esses temas, mas podemos pensar sobre; no entanto, sabemos que a ciência mudou, mas sobre isso não tenho o que falar. O tempo de Kant era o tempo dos homens se esclarecendo, mas não dos homens esclarecidos, não obstante isso, o filósofo teve coragem de tomar as rédeas da própria vida através da sua própria razão. E nós, será que temos coragem o suficiente? Vivemos em um tempo um tanto estranho, aquele homem que estava em vias de esclarecimento, saindo da fase de tutela da Igreja – que pensava e determinava o que era verdadeiro -, hoje está cada vez mais perdido em si mesmo, os seus sonhos são os da massa, parece que todos os homens querem o mesmo, como diz Nietzsche: “conseguimos desde o princípio manter nossa ignorância, para gozar de uma quase inconcebível liberdade”, essa liberdade é a nossa fé: em um mundo melhor, em uma vida melhor, mas tudo baseado na troca, na técnica, no consumo, no progresso; caminhamos todos para os confins de um lugar inexistente, tutelados pela propaganda que promete um novo amor, uma nova felicidade, ou por uma religião, que julga ter razão, quando apenas cometeu barbáries e mais barbáries em todo o decorrer da história. Somos tutelados pelo Estado que dita as regras a serem seguidas antes mesmo de nascermos, por um emprego que diz o que temos que fazer nos comprando e, por fim, julgamos que o otimismo é a única coisa que nos resta, no entanto, não temos a coragem de dizer que esse otimismo é só uma maneira de nos conformarmos com as injustiças que vemos todos os dias. Ao meu ver, se a sentença de Kant for verdadeira, somos todos covardes, mas temos medo do que então? Se o esclarecimento é a própria liberdade, temos medo daquilo que Paulo Freire chama de “esvaziamento da liberdade”, uma liberdade que não reconhece os seus próprios limites, que vai para além e mais além, sem saber onde vai parar, pois a sede de infinito é a angústia de não saber onde todo esse esforço para ser livre vai dar. Em um mundo onde a cultura é cada vez mais metodológica, qualquer problema tem método para resolver, qualquer crise existencial tem livro para ler, qualquer amor perdido tem filme para ver, esse “esvaziamento da liberdade”, que talvez seja o próprio esclarecimento, é uma utopia, não somos livres e tampouco transcenderemos os limites do nosso tempo, costumo dizer ironicamente: “se Jesus não voltar estamos ralados”; e para finalizar, acho que ainda somos homens se esclarecendo, no entanto, estamos, no que diz respeito à razão, muito atrás de Kant, Hegel, Fichte, Schelling, Goethe, Schopenhauer, Hölderlin, Beethoven, Mozart, Marx, pois, esses sim, estavam se esclarecendo… E nós? Só resta-nos a fé…
Philosophical Powers
The “Exacerbating” Existentialist
Friedrich Nietzsche
1844-1900
Nationality: German
Group Alliances:
“Exacerbating” Existentialists
“Aggressive” Atheists
“Reprehensible” Relativists
AKA: Beat-ya Nietzsche
Nice Guy Freddie
Right Said Fred
Zarathustra
Powers: remarkably original, ahead of his time
Weaknesses: crazy
Da Solidão
Ouvindo “How Deep is your love” do Bee Gees – uma ótima música para se ouvir caminhando com a mão no bolso contemplando a “fumaça” da nossa respiração em uma noite de frio (a estética de Porto Alegre) -, no caminho de casa, me peguei pensando sobre a solidão. Essa palavra tem em si um peso, algo que nos causa um imenso medo, pois ninguém, aparentemente, quer estar só. Mas por que o medo da solidão? Não sei… Por um lado, Nietzsche nos faz refletir sobre isso. Para o filósofo alemão, os Espíritos Livres, os Filósofos do Futuro, sabem ser só, eles são por inteiros somente em sua solidão, que para o filósofo quer dizer interioridade, conhecimento de si mesmo, mascarando-se do mundo; o filósofo do futuro é para si uma coisa muito diferente do que é para o mundo, pois a opinião do outro é sempre um equívoco e ele, o filósofo solitário, regozija-se disso. Nesse caso, o filósofo só pode ser feliz em sua própria solidão. Entretanto, essa solidão não significa isolamento, a solidão do filósofo é a solidão em meio a multidão, é sentir-se único e, portanto, é amar-se a si mesmo. Um outro filósofo alemão chamado Erich Fromm, admite, falando de amor, que “só pode amar quem sabe ser só”, isso vai ao encontro daquilo que Nietzsche fala, pois só se pode amar aquele que ama a si mesmo – amar a si mesmo é ser livre, liberdade para Nietzsche é ser responsável por si mesmo. Ora, aquele que ama a si mesmo não quer usar o outro como meio para se perder, se aliviar, se alienar, muito pelo contrário, amar a outra pessoa é achar-se nessa pessoa, mas para isso, é preciso um reconhecimento de si mesmo, é preciso aquela solidão nietzschiana. Ao meu ver, é preciso desmistificar o problema da solidão, saber ser só é saber viver consigo mesmo. O desespero por companhia, o desespero por “amor”, é uma fuga de si mesmo, é ter medo de se conhecer… Portanto, corrigindo os termos, esse desesperado não é ser só, mas ser sozinho: simplesmente pequenininho perdido em seu desespero.

