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Hilan Bensusan – Paraninfomania
Discurso de paraninfo para a turma de filosofia em 1/2008, UnB.
Externismo e autoconhecimento
O externismo é uma posição filosófica que afirma que os nossos estados mentais são, pelo menos parcialmente, determinados pelo nosso ambiente social. Contudo, essa posição tem conseqüências relevantes para a discussão acerca da natureza do que se passa em nossa mente, pois, aparentemente, significaria que para sabermos o que pensamos, deveríamos investigar o ambiente que nos rodeia e não apenas refletir acerca do que pensamos; portanto, deixaríamos de ter uma razão convincente para admitirmos a possibilidade do autoconhecimento: saber o que penso e do que penso. Assim, pareceria haver uma incompatibilidade entre externismo e autoconhecimento, pois só poderia saber o que penso se antes eu soubesse o que há no ambiente social ao qual estou inserido (língua, objetos, etc.) Ora, mas essa investigação acerca do meu ambiente social não deveria ter como pressuposto básico que eu sei o que e do que estou pensando? Essa espécie de paradoxo epistemológico desencadeou uma rica discussão sobre a possibilidade da compatibilidade da posição externista com o autoconhecimento. Posições que variam segundo cada autor. Pretendo nesse texto, então, apresentar as posições de dois autores: a primeira de Tyler Burge, que propõe a idéia de autoconhecimento a partir do que ele chamou de juízos autoverificativos; e a segunda de Hilan Bensusan, que propõe um autoconhecimento a partir da tradição do Anerkennung (reconhecimento). Todavia, não podemos deixar de ver a posição de Donald Davidson em relação a esse tema, visto que, tanto para Burge quanto para Bensusan, Davidson é um interlocutor.
No texto chamado “Knowing one’s own mind”, que é considerado um dos mais importantes nesse tipo de empreendimento filosófico, Davidson começa dizendo que para conhecer o que os outros pensam, nos apoiamos em evidências comportamentais; mas que o mesmo não se aplica quando queremos saber o que pensamos, não precisamos nos apoiar em evidências dos nossos próprios comportamentos: “normalmente eu sei aquilo que penso antes de falar ou agir”1 (Davidson, 1998). Porém, uma coisa é eu saber no que eu acredito estar pensando, e outra é estar certo sobre o que estou pensando, ou seja, uma coisa diz respeito a uma relação que guardo comigo mesmo, com a minha própria mente, com o meu próprio pensamento, e outra diz respeito a uma relação que guardo com o mundo, com as coisas que estão fora de mim e que percebo-as assim. No primeiro caso, não me apoio em evidência alguma, pois “em geral, a crença de que temos um pensamento é o bastante para justificar essa crença”2 (Idem); já no segundo caso, me apoio em evidências: comportamentos, língua, objetos, etc . Sendo assim, mesmo que aparentemente eu saiba o que eu acredito pensar antes mesmo de agir ou falar, as razões para saber o que acredito pensar, são mais fracas do que as razões acerca do que penso, dito de outra forma, seria mais fácil alguém saber o que eu penso, se apoiando em evidências comportamentais minhas, do que eu próprio saber o que penso; portanto, a minha autoridade sobre o que penso, o meu autoconhecimento, se vê em sérios apuros. Contudo, o fato de não nos apoiarmos em evidências para saber sobre o que pensamos não indica a impossibilidade de sabê-lo, não se trata de buscar evidências, não necessitamos de regras anteriores para saber sobre o que pensamos; e as razões para isso, como vimos acima, é a própria crença de que temos pensamentos, e sobre isso temos autoridade, mas é claro que “reconhecer esse fato não é, contudo, o mesmo que explicá-lo”3 (Ibidem). Para não nos estendermos demais, vamos ir direto para a solução que Davidson propõe, mesmo que isso seja um salto imenso na discussão que estávamos fazendo; todavia, o que foi posto anteriormente, serve de reflexão sobre a dificuldade acerca desse tema e, além disso, para contrastar com as motivações dos dois filósofos que farão parte da nossa discussão.
Davidson, enfim, propõe uma crítica à metáfora dos objetos perante a mente e, portanto, a noção de representação da mente como um teatro (Idem, p. 105), diz ele:
“A solução no caso dos estados mentais é diferente e simples; é se livrarmos da metáfora dos objetos diante da mente; a maioria de nós há muito tempo já abandonou a idéia de percepções, dados sensoriais e fluxo da experiência como coisas “dadas” à mente; deveríamos tratar objetos proposicionais da mesma forma. É claro que as pessoas têm crenças, desejos, dúvidas e assim por diante; mas admitir isso, não é sugerir que crenças, desejos e dúvidas são entidades na ou diante da mente, ou que estar em tais estados requer que haja objetos mentais correspondentes” 4.
Ora, como fica claro, Davidson quer negar a idéia que diz que todo o pensamento tem um referente na mente, o que ele chama de “o mito do subjetivo”; assim, a identidade do nosso pensamento não pode ser atribuída a um objeto na mente, visto que se esse pensamento se referir a algo no mundo, e que saber tudo acerca desse objeto implica reconhecer as suas relações com outras coisas no mundo – relações que de alguma forma se espelhariam na mente -, pois é assim que o individuo; então, corro o risco de errar sobre o que penso, ou melhor, corro o risco de ter na mente, mais do que eu sei que tenho.
Feito essa breve apresentação da problemática apontada por Davidson no que diz respeito a uma tese compatibilista entre externismo e autoconhecimento, podemos passar para a apresentação da posição de Tyler Burge, que repousa na idéia de que quando eu penso sobre algo, quando identifico uma coisa excluindo outras, não preciso de um critério anterior para fazer isso, isto é, não preciso de uma regra que me faça individuar as coisas, um procedimento que me faça “investigar” algo antes de ter certeza do que penso sobre esse algo, por exemplo, quando digo “essa folha de papel está em branco”, estou afirmando que “penso que essa folha de papel está em branco”, tendo apenas a diferença de que a primeira proposição, repousa sobre um pensamento de primeira ordem, enquanto a segunda, em um pensamento de segunda ordem, isto é, um pensamento reflexivo; isso seria o que Burge chama de autoconhecimento básico (Burge, 1998, p. 112). Com isso, em primeira ordem, o que dizemos depende do mundo e pode ser falível – falso ou verdadeiro – ; todavia, mesmo que essa afirmação tenha sido falsa, não significa que em segunda ordem ela também seja. No exemplo citado acima, por mais que eu tenha sido transportado para uma Terra Gêmea sem saber5, e o que eles chamam de folha de papel não é feito de celulose, ou seja, não é o mesmo composto químico-físico, mas se chama do mesmo jeito que na Terra e é do mesmo jeito fenomenológico que na Terra, o que falhou naquele juízo passa a ser o que diz respeito à sua primeira ordem; todavia, em segunda ordem, o juízo não falhou, não minou, portanto, o autoconhecimento, pois ele não dizia respeito ao fato empírico; mas a o que eu pensava.
Essa posição de Burge parece esclarecer um pouco a relação entre externismo e autoconhecimento, nos mostrando que os nossos pensamentos acerca das coisas do mundo são determinados por essas coisas do mundo; todavia, o que determina o meu autoconhecimento, se dá em outro nível, isto é, quando sei que penso sobre algo no mundo. Com isso, a relação entre os nossos conteúdos mentais e o mundo é conservada, tendo em vista que, faz parte da nossa capacidade cognitiva poder subsumir um pensamento empírico em um juízo reflexivo, e é nesse juízo reflexivo que se dá o autoconhecimento, assim, podemos não só perceber que o externismo é compatível com o autoconhecimento, mas que esse parece estar pressuposto em qualquer relação de conhecimento.
A posição de Hilan Bensusan, como havíamos dito no início do texto, caminha para uma compatibilidade entre externismo e autoconhecimento a partir da tradição da anerkennung. Propõe que parece que sempre que queremos justificar uma crença acerca de algo, precisamos de um certo assentimento, seja de alguém ou de razões que extrapolam o próprio sujeito cognoscente; todavia, isso não significa que o sujeito está totalmente a mercê de razões que estão no mundo – não que elas não estejam em parte -, isto é, sem total autonomia sobre as razões de seus próprios pensamentos. Nesse caso, Bensusan parece propor que é necessário um autoconhecimento básico, para que possamos dar razões acerca do que pensamento e, portanto, estarmos em uma relação de conhecimento, diz ele:
“Acredito que podemos (…) argumentar que sabemos, em alguma medida, o que pensamos, pois pensar (também sobre o que pensamos) requer que saibamos alguma coisa. Davidson insiste que a presunção de verdade em favor de nossas crenças, que é um requisito para que sejamos interpretáveis e que nossas crenças tenham conteúdo, se aplica também ao que nós acreditamos que acreditamos. Não podemos estar errados acerca de tudo que pensamos que acreditamos; se assim fosse, não pensaríamos coisa alguma” (Bensusan, p. 214).
Ora, o que Bensusan nos traz se filia ao que foi apresentado acima em Tyler Burge e Davidson, de que é preciso que haja alguma coisa de certa para que possamos ter uma relação de conhecimento e, assim, poder justificar acerca daquilo que penso e daquilo que os outros pensam; contudo, o que Bensusan quer propor é a noção de reconhecimento, como se a posição de Tyler Burge, a idéia de um autoconhecimento básico seja apenas uma questão pressuposta na sua discussão, além disso, ele concorda com a posição de Davidson que diz “que conhecemos grande parte do que acreditamos: um engano sistemático ou global sobre o que pensamos nos tornaria ininteligíveis”. Assim, o que interessa agora é se voltar para a posição de Bensusan e o que ele propõe para conciliar o externismo e anerkennung.
A posição de Bensusan é a seguinte: “(…) algumas razões (que são objetos do mundo) devem estar presentes em nossa vida mental para que possamos reconhecer razões e para que tenhamos conteúdos em nossas crenças” (Idem, p. 221). Assim, para o filósofo deve haver sim uma conexão entre o mundo e a nossa vida mental – isso é a posição externista por excelência -; contudo, ele vai mais adiante, dizendo que não está propondo um externismo naturalista, isto é, que existem razões no mundo que são como leis básicas da natureza e que o nosso conhecimento delas é desnecessário para que eles existam ou atuem sobre nós. O que acontece é que reconhecemos razões, precisamos do assentimento de algo para termos algum tipo de certeza; portanto, há de alguma forma algo que está presente na nossa vida mental, que faz com que reconheçamos que algumas justificações são mais convincentes que outras, e reconhecê-las é saber adentrar nesse campo de justificações, compartilhando com outras pessoas essas razões que, pelo fato das outras pessoas reconhecerem, podemos experienciar uma conexão entre o mundo e a nossa vida mental; mas pelo reconhecimento, que de alguma forma se liga a nossa prática, ao nosso dia-a-dia, como ele mesmo diz:
É apenas porque há práticas de oferecer e demandar por razões que algumas razões são melhores que outras — merecem comandar mais Anerkennung. Esse merecimento, no entanto, é completamente dependente das razões que nós já aceitamos, são elas que nos fazem reconhecer outras razões. As razões estão presentes quando há pensamento — trata-se talvez de uma doutrina aparentada com o platonismo naturalizado defendido por McDowell (1994). As razões estão na natureza mas elas dão conteúdo à nossa vida mental e, do ponto de vista de nossa vida mental, é que nós reconhecemos razões. (Ibidem)
Assim, para Bensusan, as razões só podem ser reconhecidas dentro de um espaço de quem dá razões e de quem reconhece as razões, não há um espaço das razões que transcendem a realidade e que a justifica, mas sim, um espaço onde “pode haver razões que não estão ainda pensadas ou consideradas por quem quer que seja, mas elas devem poder ser reconhecíveis à luz das razões que nós tomamos como boas razões” (Ibidem). A nossa vida mental, portanto, por ser um espaço de razões que é compartilhado por outras pessoas e que, além disso, é reconhecido por nós mesmos como razões, na medida que posso pensar sobre elas, faz parte do mundo, não é alheio a ele. Dessa forma, podemos dizer que o meu espaço de autonomia se dá no reconhecimento de razões, e que o meu pensamento é parte essencial desse reconhecimento. O externismo proposto por Bensusan, coloca o autoconhecimento na perspectiva não só de mim comigo mesmo, mas do fato de compartilhá-lo com outros, ou seja, o meu autoconhecimento não é apenas um movimento de auto-reflexão sobre os meus conteúdos mentais, mas a possibilidade de reconhecer e justificar as razões que fazem eu ter certeza de algo para mim e para o outro.
A relação entre as idéias de Tyler Burge e Hilan Bensusan, por fim, são muitas. Contudo, ao meu ver, a noção de autoconhecimento dos dois é um pouco distinta. Em Burge, o processo de autoconhecimento básico se dá em uma esfera de juízo autoverificativos: “penso que penso sobre X”; já em Bensusan, o autoconhecimento se dá no sentido de eu reconhecer razões: “penso que penso sobre as razões para justificar algo”, pois é como se exigisse o assentimento de algo, de razões. Mesmo assim, a posição de ambos não parecem se excluir, apenas diferem em grau. O autoconhecimento de Bensusan parece um pouco mais sujo, um pouco mais cotidiano, um pouco mais relacionado com pessoas, um pouco mais mundano, enquanto o de Burge, parece ser as condições de possibilidade para esse autoconhecimento de Bensusan e, portanto, é mais limpinho, um pouco mais lógico. Enfim, em ambos os casos, o compatibilismo entre externismo e autoconhecimento é pensado como condições de entendimento do mundo e da nossa forma de pensar. Os nossos conteúdos mentais, portanto, são partes do mundo e o mundo parte de nossos conteúdos mentais – pensamos o mundo nele e de dentro dele.
REFERÊNCIAS:
BENSUSAN, Hilan. O pensamento sem estaca zero (a mentalidade externalista e as razões nossas de cada dia. Kriterion, Revista de filosofia da UFMG, nº 110, 209-223. 2004.
BURGE, Tyler. Individualism and Self-knowledge. Peter Ludlow & Norah Martin (eds.), Externalism and Self-Knowledge. Stanford: CSLI Publications, 1998.
DAVIDSON, Donald. Knowing one’s own mind. Peter Ludlow & Norah Martin (eds.), Externalism and Self-Knowledge. Stanford: CSLI Publications, 1998.
1“(…) normally I know what I think before I speak or act”. (Davidson, 1998, p. 87)
2“(…) in general, the belief that one has a thought is enough to justify that belief”. (Idem, p. 88 )
3“(…) To recognize this fact is not, however to explain it”. (Ibidem)
4“The solution in the case of mental states is different; and simpler; it is to get rid the metaphor of objects before the mind. Most of us long ago gave up the idea of perceptions, sense data, the flow of experience, as things ‘gives’ to the mind; we should treat proposicional objects in the same way. Of course people have beliefs, wishes, doubts, and so forth; but to allow this is not to suggest that beliefs, wishes and doubts are entities in or before the mind, or that being in such states requires there to be corresponding mental objects”. (Idem, 107)
5Se refere ao experimento mental proposto por Hilary Putnam em “The meaning of ‘meaning’”, que é chamado de Slow-switch, que significa troca de ambiente de maneira desapercebida.
O pensamento sem estaca zero (a mentalidade externalista e as razões nossas de cada dia)
RESUMO: O reconhecimento de uma autoridade (de fatos, de observações compartilhadas, de princípios comumente aceitos etc.) por parte de quem se convence é o que buscamos quando nos engajamos em uma prática de oferecer razões para um pensamento ou uma ação. Parece que o ato do reconhecimento é um elemento constitutivo do estado em que temos (ou aceitamos) razões. Por outro lado, muitas vezes estamos inclinados a dizer que temos ou não temos razão; como se, caso a tenhamos, o reconhecimento da autoridade da nossa razão seja compulsório. Por vezes, quando nos movemos no espaço das razões, temos a impressão de que elas já estão lá, de que elas são independentes do nosso melhor julgamento, e o melhor que temos a fazer é aprender a ficar sensíveis a elas. Neste texto examino o realismo quanto a razões como uma formulação do externalismo e considero as conexões entre externalismo em semântica e em epistemologia. Argumento que um realismo quanto a razões pode fazer uso de uma estratégia davidsoniana para conciliar a idéia de que razões estão no mundo com a concepção destas últimas segundo a qual o reconhecimento lhes é constitutivo.
Hilan Bensusan – Por uma etiologia filosófica da psicanálise
Antes de começar a falar sobre a psicanálise, sua legitimidade e de comentar o texto do Sandler, acho que seria interessante contar um pouco de onde eu venho. Eu tenho me preocupado com teoria do conhecimento há um certo tempo e de várias diferentes maneiras. De onde estou agora, me parece que a filosofia – a tarefa de examinar radicalmente os percursos de todos os nossos pensamentos – é imprescindível para a construção de uma visão do mundo, ou das pessoas, que possa ser satisfatória. Não quero dizer que todos devem fazer filosofia mas gostaria de viver em uma sociedade que pudesse conhecer as raízes do que a leva a pensar do modo como ela pensa. O pensamento fica inconsciente de suas motivações se ele não se investiga radicalmente. Investigações radicais fazem com que nós saibamos que coisas guiam o nosso pensamento; e com isto, que pensemos melhor. Segue-se que muitas vezes temos que abandonar conclusões que estamos acostumados a aceitar. Gostaria que a psicanálise pudesse se examinar desta maneira. E gostaria de poder ajudar um pouco nisto.