Posts Tagueados ‘ética’
Santiago…
Ontem o professor Luis Antônio Baptista nos sugiriu que assistissemos ao filme “Santiago” de João Moreira Salles, dizendo que era um filme de Ética. Fiquei curioso, acabei de assistir… Fazia tempo que não me impactava com algum filme, mas esse não teve jeito, me fez pensar sobre um monte de coisas: o anominato de pessoas grandiosas, a leveza da vida, a culpa, a desculpa, a história de si pela voz de outro, o silêncio, o constante “allegro ma non troppo” da vida. Por que é um filme de ética? Porque nele o documentarista repensa as sua ações de um ponto de vista que não o seu no momento da gravação – a narração em off. Nessa experiência que aparentemente poderia ser um tributo ao ex-amigo, ex-empregado, ex-cuidador, temos a revelação: no filme, o mordomo não era a personagem do documentarista, tampouco o documentarista era um cineasta. Nada mudou, Santiago continuava sendo o empregado e João Moreira Salles, o filho do patrão…. eis a grande tensão!…
Paradigma Ético-Estético e Filosofia da Diferença
Abordar em nossa apresentação o Paradigma Ético-estético e a Filosofia da diferença pode parecer uma tarefa fácil, já que não podemos negar a influência desse paradigma em nossas formações enquanto mestrandos. No entanto, por conta dessa grande influência, não é difícil cairmos em um discurso fechado, pouco crítico e com clichês, onde o mesmo se apresenta enquanto única maneira de pensarmos o mundo, ou seja, perdendo os diversos nuances e diferenças que os outros paradigmas podem nos trazer enquanto produção de conhecimento. Assim, cairíamos no problema da recognição, onde, como afirma Friedrich Nietzsche em sua “Gaia Ciência”: “conhecer é tornar familiar”. É claro que o filósofo alemão está fazendo uma crítica à noção de conhecimento tal qual o homem criou para si, onde não há o estranhamento, muito menos produção do novo, mas o mero reconhecimento, onde achamos aquilo que nós mesmos escondemos. Portanto, pensando novamente em nossa apresentação, podemos dizer que fazer o elogio àquilo que a primeira vista nos constitui e não nos colocarmos a navegar em mares estranhos, seria abrir mão de uma filosofia da diferença, ou seja, uma contradição na nossa tarefa, sendo essa perspectiva que torna essa apresentação um tanto quanto difícil.
Hegel: Consciência, Liberdade e Trabalho
É através do desejo consciente que a consciência de si assume a sua primeira identidade. Esse desejo consciente nada mais é do que uma relação que ela mantém consigo mesma, como se no “desejar”, o seu próprio “eu”, puro e simples, se tornasse objeto de desejo para ela mesma. No entanto, esse desejo consciente, que torna o sujeito objeto para si mesmo, tem uma relação com a exterioridade, isto é, o sujeito volta-se para fora-de-si, mas esse voltar-se para fora é ao mesmo tempo estar em si, ele tem um caráter duplo, pois o sujeito deseja um objeto que está fora dele, mas, mesmo assim, esse objeto está nele (como representação), pois é objeto de desejo dessa consciência de si.
A consciência de si, nesse primeiro momento, deseja a si mesma por meio do mundo: “o término do desejo não é o objeto sensível, como se poderia crer de modo superficial – ele é tão somente um meio -, mas a unidade do Eu consigo mesmo. A consciência de si é desejo; porém, o que deseja, sem que ainda o saiba explicitamente, é ela mesma”1; ou seja, ela tem uma relação imediata consigo mesma através da mediação do mundo, no entanto, o que ela deseja não é ela mesma, não é essa a sua verdade. A sua verdade se daria com a negação dessa relação imediata consigo mesma, como afirma Hegel, isto é, a consciência deve desejar um outro desejo que não o dela.
Portanto, a consciência de si em seu primeiro momento, constitui a sua identidade desejando e negando o mundo, em uma relação de imediatez consigo mesma: imediatez mediada pelos objetos do mundo, que constituem para ela coisas a serem consumidas, destruídas. Essa consciência de si, antes do reconhecimento, antes de se pôr para um outra consciência, é um puro “eu”, uma pura certeza de si mesmo, e isso não basta; ela precisa agir sobre essa outra consciência de si – isso é o pôr-se para outra consciência -, para assim, poder ser, em sua essência, para essa outra consciência, mero objeto a ser negado, dando continuidade ao movimento dialético em direção à liberdade.
A liberdade é o resultado final da dialética do senhor e do escravo, onde após uma luta por reconhecimento, duas consciências de si se põem em uma luta de vida e de morte, como se ambas quisessem provar, uma para a outra e para elas mesmas, o seu valor. Mas, vamos retomar um pouco e vermos o que seria essa luta por reconhecimento.
Como vimos na questão anterior, a consciência de si quando deseja algo no mundo, deseja no fundo o seu próprio desejo, ou seja, ela própria, ou melhor, um desejo como o dela, isto é, ela deseja o desejo de uma outra consciência de si. Para isso, ela precisa reconhecer-se nessa outra consciência de si.
Quando uma consciência de si se reconhece em outra consciência, ela se perde, é jogada para fora de si, pois vê em uma outra consciência ela própria, no entanto ao mesmo tempo, ela nega essa outra consciência, pois o que ela vê na outra, é ela mesma: uma relação de espelhamento. Entretanto, essa consciência de si, que se vê na outra e, portanto, que se perde nessa, deve voltar-se para si mesma, para completar o movimento do ser-para-si, e nessa volta, nega ela mesma essa outra consciência de si: a consciência que ela se espelhava. Sendo assim, a consciência de si que no primeiro momento se reconhecia na outra consciência, e reconhecendo-se nessa, negava-se a si mesma, em um segundo momento, nega essa consciência e, portanto, nega a si mesmo novamente.
Desse movimento dialético de constante negação do outro e de si mesmo, vai resultar uma luta ainda maior, pois ambas irão querer provar o seu valor para a outra, uma consciência de si não vai querer ser objeto para a outra, não vai querer ter o seu desejo negado pela outra consciência de si, por isso, além dessa luta por reconhecimento, essas consciências vão querer dominar para não serem dominadas, e isso será a luta de vida e de morte que Hegel fala2.
As consciências de si, já reconhecidas como tais, vêem no seu Outro um agir que quer a sua aniquilação, isto é, a sua perda de autonomia. Ora, para a consciência de si ser autônoma, nesse primeiro momento, ela precisa acabr com a autonomia da outra, e nesse conflito, nessa luta de vida e de morte, uma se sairá vencedora, pois não se apegará a vida, não temerá diante da morte, e a outra, que por temer diante da morte, se apegará à vida, se apegará à natureza, tomada apenas por um instinto de preservação.
Portanto, essa consciência de si, que se saiu senhora nesse embate, foi reconhecida, teve a sua dignidade humana reconhecida, enquanto a outra, a que se saiu escrava, não foi reconhecida em sua dignidade humana, ela se tornou nada além de um animal do mundo, reconhecendo a consciência de si do senhor como alguém de que ela depende, pois poupou a sua vida. É por isso, ao colocar a sua própria vida em risco, a consciência de si, que se saiu senhora, comprovou a sua autonomia, que é um movimento essencial para a liberdade, que nesse momento é só de uma consciência de si, liberdade que se fundamenta ainda na desigualdade.
Como vimos na relação de reconhecimento entre duas consciências de si, o senhor é “uma consciência para si essente que é mediatizada consigo por meio de uma outra consciência”3, essa outra consciência é a consciência de si que se tornou escrava, ou seja, se apegou à vida, se apegou a coisidade. Relacionando-se consigo mesmo por meio do escravo, o senhor reduz o escravo ao mundo, isto é, o escravo se torna coisa a ser negada, mas o senhor não nega por total, não mata o escravo, o senhor o utiliza para “aquietar-se no gozo”4, ou seja, o senhor tem o seu desejo saciado por meio do escravo, que trabalha as coisas do mundo e as dá ao senhor. O senhor só é senhor, ou seja, se reconhece como senhor por meio do escravo.
Reconhecer-se enquanto senhor, é ter a sua dignidade humana reconhecida negando a dignidade humana do escravo, que, como havíamos dito, se reduz a coisidade em geral, conjunto das coisas do mundo, que são independentes, pois não são para o senhor, mas não o serão com o trabalho do escravo. Nesse caso, o escravo, esse que se apegou à vida, se mostrou dependente do senhor, mas é independente em relação ao senhor, no sentido de estar sintetizado à exterioridade desse, por isso, o senhor se relaciona mediatamente com o escravo por meio do ser independente, pois o ser independente é aquilo que é potencialmente objeto de desejo do senhor. Assim, o escravo é o próprio ser independente, pois ele é coisa no mundo e é se voltando ao mundo, enquanto coisa, que o senhor se relaciona com esse escravo.
No entanto, o escravo que é independente no sentido de fazer parte da coisidade em geral, também se relaciona com as coisas do mundo através do trabalho que desenvolve para o senhor. O senhor já não precisa mais trabalhar, não precisa mais buscar as coisas para saciar o seu desejo, o escravo é que faz isso, ele se relaciona diretamente com o desejo do seu senhor.
Por isso, o escravo se relaciona com a coisa que o senhor quer, e é dessa forma que o senhor se relaciona com a coisa por meio do escravo, pois o escravo serve ao senhor aquilo que esse quer, por exemplo, quando o senhor está com fome, não precisa preparar o seu o seu próprio alimento, quem prepara esse alimento é o escravo, que cozinha e prepara os ingredientes, para o senhor ter esse desejo saciado e, voltando-se a si, ser para si senhor.
Segundo Hegel “o trabalho forma”5: o trabalho forma o escravo. Educa-o para a liberdade e também forma a natureza, pois é no trabalho que o escravo se torna senhor, é pelo trabalho que ele se diferencia da coisidade na qual ele era meramente meio para o desejo do senhor. Entretanto, o escravo ao trabalhar sobre o objeto, se eleva além da vida – essa que ele havia se apegado no embate de vida e de morte -, pois no trato com o mundo ele altera o estado de coisas em que ele está inserido. Para o senhor, o escravo nada mais é do que uma coisa no mundo, mas para o próprio escravo, nesse outro momento, ele passa a ver no objeto trabalhado a sua própria realidade, isto é, ele se reconhece no objeto trabalhado, se conscientiza que o trabalho que ele desenvolve é independente do senhor, pois se dá na coisidade em geral, e que esse depende do trabalho do escravo para ter o seu desejo efetivado. Por isso, nesse primeiro momento, o significado positivo da formação pelo trabalho para o escravo é a transformação da natureza e de si mesmo, um momento em que o escravo passa a se reconhecer no mundo, não enquanto tal, mas já transformado por sua ação.
No entanto, esse significado positivo só se dá por meio de uma negação, isto é, ele tem um significado negativo – negação de um Outro, portanto, negação da consciência do senhor. Ao sentir-se senhor da natureza, o escravo nega o seu primeiro momento após a sua derrota no embate com o senhor; ao apegar-se à vida ele se submeteu às leis da natureza, ele não se diferenciou da coisidade, esse é o preço que ele pagou: cedeu a sua autonomia para manter-se vivo. Ora, vivendo a possibilidade da morte ele “toma consciência de sua realidade, do valor que o simples fato de viver tem para ele; e só assim ele se dá conta da gravidade da existência”6. Mas para que a consciência do escravo encontre a sua verdade, que antes, em um primeiro momento, era a do senhor, ela precisa negar esse senhor, precisa superar o temor que tinha dele. Essa negação se dá no momento em que a consciência de si do escravo se efetiva na realidade através do trabalho, e essa efetivação é em si a negação da angústia que a mantinha presa à vida, a qual ela era escrava. Nesse caso, a consciência escrava se liberta da natureza ao se libertar do senhor, nega a consciência de si do senhor ao lutar para restituir a sua autonomia, e nega a natureza, a qual ela estava presa, ao transformar a sua própria realidade através do trabalho.
1Hyppolite, Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel.
2Hegel, Fenomenologia do Espírito, § 187.
3Idem, § 190.
4Ibidem.
5Idem, § 195.
6Kojève, Introdução à leitura de Hegel.
Devaneios humanísticos
Até ontem estava pensando a idéia de Humanismo como uma reflexão aprofundada acerca do humano; contudo, pude perceber que o humanismo é um conjunto de valores, e que a reflexão humanista está em grande parte baseada na idéia de que o homem saiu da sua trilha, perdeu-se nas linhas da “evolução”. Entretanto, essa questão parece carecer de fundamentos, pois a pergunta pelo sentido humano pressupõe a existência de um sentido humano – mas não é isso que se quer provar? Talvez a única definição de humano que podemos afirmar, é a que aparece em Hannah Arendt, nos trazendo que, para os romanos, “viver é estar entre os homens”, por isso, o sentido humano não seria a própria vida humana, e o humanismo não seria uma visão de mundo apenas na visão do homem, isto é, algo “humano, demasiado humano”?
Por uma ética um pouco mais leve
Há séculos o homem insiste em se perguntar sobre qual a melhor maneira de agir no mundo. Essa pergunta tem por fim sabermos como alcançar a felicidade. Os diversos pensadores da ética deram um grande valor à razão, na sua maioria buscaram fundamentar as suas éticas após uma exaustiva argumentação metafísica – indo do chão às estrelas, da sensibilidade à razão. Essa ética pesada, sem a insustentável leveza da vida, que virou e ainda vira teses doutorais, fez com que os filósofos se deliciassem com a sua própria racionalidade, esquecendo do mais importante: o agir no mundo. Talvez precisemos muito mais de um agir do que um exaustivo refletir, creio que uma ética da gentileza seja muito mais utópica que uma ética dos “imperativos da razão”, tendo em vista que poucos querem transformar-se a si mesmo. No entanto, temos sorte, há pessoas muito mais simples que conseguem aliviar todo o peso metafísico dessas pretensiosas e frias éticas. No Rio de Janeiro surgiu José Datrino, o Profeta Gentileza, que se colocou como missão esclarecer as pessoas para que tenham uma vida melhor, dizia ele que a sua missão era “amansar os homens burros da cidade que não tinham esclarecimento” e quando as pessoas o chamavam de louco apenas respondia: “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”; louco ou não, isso não é suficiente para desconsiderarmos a sua sentença: “Gentileza gera gentileza”. O que o profeta queria era intervir na cidade com os seus murais, fazendo com que as pessoas ao lerem a “palavra no muro”, “a palavra que liberta”, como dizia Marisa Monte na sua música chamada “Gentileza”, pensassem nas suas ações, e que se elas passassem a serem gentis umas com as outras, aos poucos teríamos uma vida mais tranqüila e feliz em meio às adversidades. Podem soar ingênuas demais as palavras de José Agradecido, mas o seu trabalho e a sua fé se aproximam muito mais da vida, são mais leve que qualquer metafísica. Ao invés de agirmos conforme a razão, pensemos em ser mais gentis uns com os outros, isso com certeza está ao nosso alcance e todos sabemos o que significa ser gentil – A ingenuidade do Profeta Gentileza talvez seja a sua maior força.
