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Entrevista com a filósofa Scarlett Marton
A filosofa é editora dos conhecidos (e espantosamente bons) Cadernos Nietzsche do Departamento de Filosofia da USP. Ouça as três partes da entrevista aqui, aqui e aqui. Uma entrevista que mescla Richard Wagner e “Born to be wild” do Easy Rider. Depoimentos interessantes e verdadeiramente dignos, que vale a pena nós ouvirmos. Palavras raras hoje em dia.
Extraído de: http://fortalezanietzsche.blogspot.com
Uma lição Nietzscheana: A hora má
Para além de uma pedagogia da correção
Ser professor de filosofia não é uma tarefa fácil, ainda mais quando se espera da filosofia, da educação, dos professores a tarefa de “salvarem” os adolescentes, visto que eles “precisam” ser encaminhados para um “bom” caminho, para um futuro cheio de esperanças e alegrias – talvez esse ideal de mundo precise ser questionado, quem sabe não seria interessante perguntar para os próprios adolescentes o que eles querem. Há um tempo atrás um colega meu me disse que a tarefa do professor de filosofia é dar aos seus alunos “a dor do esclarecimento”, ou seja, a tarefa do professor de filosofia é esclarecer para que os alunos sejam esclarecidos e, assim, fazerem por si mesmos – servirem-se corajosamente do seu entendimento. Entretanto, não seria uma contradição ensinar alguém a ser esclarecido, isto é, a se auto-determinar? É possível ensinar o esclarecimento? É uma questão que me inquieta, pois muito antes de esclarecer – se é que isso é possível -, parece que toda a tarefa de um professor de filosofia, seria corrigir; mas corrigir em relação ao quê? Não sei… parece que a tentativa de corrigir algo pressupõe que esse algo estava certo e se desencaminhou, como se houvesse um fim humano, como se a tarefa do professor fosse conduzir o aluno ao seu fim… que fim é esse? Não sei… não sei… Aliás, estou quase certo de que toda filosofia é baseada na idéia de correção: Platão queria trazer à luz aqueles que haviam se cegado no mundo das sombras, Kant queria corrigir a nossa relação sujeito-objeto com a sua revolução copernicana, Nietzsche queria que o homem percebesse que ele é apenas meio para um super-homem, mas que para isso, ele precisaria perceber que o cristianismo enfraqueceu-o; ou seja, parece que todos esses filósofos queriam corrigir o homem. Ora, e nós professores o que fazemos de diferente disso? Quando creio que os meus alunos não possuem a habilidade de argumentação e me dou ao luxo de ensiná-la, o que eu estou querendo? Creio que estou pensando que com essa habilidade eles podem se dar melhor no mundo, mas que direito eu tenho para isso… Novamente estou caindo no paradigma do esclarecimento, pois o ensino está todo fundado na idéia de que estamos preparando os alunos para dar os seus passos sozinhos; entretanto, mais uma vez, eu me pergunto: “É possível esclarecer alguém?”. Acho que não, pois o esclarecimento é servir-se do seu próprio entendimento; talvez quando o aluno diz um não, ele está se servindo do seu próprio entendimento. Quando ele se revolta contra uma regra, ele está se servindo do seu próprio entendimento. Quando ele se nega a fazer uma tarefa, ele está se servindo do seu próprio entendimento… O que nós professores fazemos então? Desesclarecemos, pois corrigimos, encaminhamos, tutelamos, etc… Finalizo aqui dizendo, muito inquieto, que a ação do professor está fundada em uma ética da correção, fazendo com que os alunos encontrem o seu lugar no mundo, pois partimos do pressuposto que o aluno ainda não se achou… Isso não é a minha conclusão, é meramente uma aporia, o limite da minha razão… Uma questão a se pensar: “A idéia de Esclarecimento de Kant, e que influencia muito a nossa prática educativa, é possível?”.Pela Crise da Educação
Desde que a minha prática de ensino em filosofia terminou, sustento a tese de que todo o ensino institucionalizado é pedante, e que qualquer tipo de educação que se pretenda libertadora deveria renegar a função da escola, isto é, da “educação” para a constituição de uma sociedade mais justa. Primeiramente, gostaria de dizer que tomo como “ensino institucionalizado”, todo o tipo de ensino que tem como eixo sustentador o Estado, tendo em vista que, esse ensino nada mais faria do que legitimar uma série de discursos que servem muito mais para conformar os alunos a uma vida em sociedade, pautada por leis criadas por políticos profissionais que fingem agir conforme a “razão do povo”, razão essa que se curva a qualquer peça de retórica barata, pois convence na medida que promete.
Ora, pedantismo para mim é não tomar as rédeas de sua própria vida, é abrir mão de agir como um ser político, para se afogar em conteúdos, que mais nos ofusca a visão do que nos faz enxergar em nós mesmos o poder de transcender a mediocridade da vida cotidiana. Michel de Montaigne, filósofo francês do século XVI, define o conhecimento pedante como aquele que nos torna mansos, corcundas, que ostentando o conhecimento apenas como um adorno, fala demais daquilo que não tem utilidade para a vida prática – muito do que se faz em filosofia hoje em dia, talvez pudesse ser classificado como pedantismo, mas isso não vem ao caso. O que serviria então para a vida prática? É uma resposta difícil, pois preparar os alunos para melhorarem de vida, incluirem-se em uma “sociedade mais justa”, em si, já é um preparo para a vida prática; entretanto, essa “vida prática” precisa ser relativizada, ela está inserida em um determinado contexto, nesse caso, no nosso contexto, prepara apenas algumas poucas pessoas e os outros, a maioria, ficam a margem esperando ou torcendo pelo fracasso daqueles poucos, ou seja, viver bem para alguns ainda implica na impossibilidade de uma vida boa para outros. Portanto, a formação dos alunos, que desde o início da escola já é pautada na quantificação, na produção, na competição, já afirma que somente poucos vencem: os melhores. Ora, se somente os melhores vencem, se dão bem na vida, o que resta para os piores? Podemos ver, com isso, que o discurso que diz que a escola prepara seres humanos para uma vida em sociedade mais justa é uma farsa, pois ainda se fundamenta no sucesso e no fracasso.
O próprio movimento de um aluno, problematizando essa situação, a sua relação com a escola, se questionando o porquê de haver um professor em sua frente proferindo verdades, para mim, é um movimento de quem, ao renegar a função da escola, abre mão de ser pedante, apenas se atrevendo em ir além… Problematizar a sua própria condição de aluno e a utilidade do conhecimento – o conteúdo da escola – para a vida, já é uma fuga do pedantismo.
Essa fuga do pedantismo, entretanto, não pode ser fruto de uma conscientização de um professor, como se o professor tivesse iluminado a cabeça do seu aluno, muito pelo contrário, deve ser um movimento de alguém que não suportando uma determinada situação, se põe contrário, nega para afirmar a si mesmo – a afirmação de si mesmo é a constante da vida. Portanto, ao meu ver, é preciso que notemos essa crise da educação, dos alunos que “bagunçam”, como a negação do velho e a afirmação do novo. Talvez uma outra racionalidade, uma outra maneira de lhe dar com as coisas esteja surgindo; é uma crise de valores sim, mas de pessoas que tiveram a coragem de questionar e ir além desses valores que sempre foram dados como verdadeiros – os jovens, os alunos, se deram ao luxo de questionarem a Verdade e quem somos nós para negarmos isso? Portanto, ao negar a instituição escolar, os alunos estão negando o pedantismo, pois pretendem transcender os limites das “quatro paredes do conhecimento”, não querem carregar aquilo que para nada serve, e estão instituindo uma outra maneira de lhe dar com a educação – para os problemas que teremos não há soluções prontas, basta deixarmos os nossos pedantismos de lado e vivermos a crise sem teorias a priori, que nada mais são do que preconceitos genéticos que habitam o nosso milenar sangue cristão.

