Posts Tagueados ‘angústia’
O céu sabe como estou…
De tanto que chove, o frio passa a ser sentido de outra forma: ele se afoga em meio a um coração triste, que se faz lembrança e se perde na nostalgia de momentos jamais vividos – a lembrança é como uma faculdade que guarda em meu ser todas as minhas covardias e todos os medos que não me fazem cair de cabeça na vida. Geralmente nos dizem o que fazer, na maioria das vezes nos falam o que é certo, o que é errado, mas não nos falam de como seria a vida sem toda essa roupagem de covardia e fraqueza, que faz com que vejamos ela sempre de maneira bela: trajando um belíssimo vestido azul e calçando botinhas de cristal. No fundo, tenho me trancado em mim mesmo, no sonho de que me conhecendo eu conheceria o mundo, mas já é sabido, que quanto mais nos conhecemos, mas somos desconhecidos… esse movimento de desconhecer-se é sempre dolorido, pois ele é infinito e as vezes retorna com força, somos pego sentindo o que sentíamos, mas é claro que esse ressentir é apenas um afeto que corta a nossa carne, que estremece o estômago e descompassa o peito; assim, olhamos para o céu e nos perguntamos: “você sabe como estou me sentindo?”… ele apenas responde com suaves gotas frias, que só podem salgar o nosso rosto ao misturar-se às nossas lágrimas.
Da Liberdade
Temos um senso de liberdade tão poderoso que qualquer compromisso passa a gerar um conflito na gente. É como se a nossa liberdade fosse constantemente atacada, violentada por tudo que é externo. Em um impulso damos uma volta sobre tudo e caímos em um precipício individual tão vazio, onde não temos para quem gritar – uma profunda solidão. É nessa solidão e no silêncio que nos vemos tão impotentes perante as nossas próprias vidas, pois qualquer impulso de liberdade é prisão no próprio corpo, qualquer impulso de liberdade é jogar-se em um abismo que não se sabe se tem fim, e é nele que caímos de braços abertos, na crença de que estamos, com isso, sendo o que realmente deveríamos ser.
O inaudível
Tantas vezes tentei mudar meu o mundo, assim como mudamos de roupa. Tantas vezes recitei mantras e mais mantras atrás de uma nova possibilidade, de uma nova maneira de lhe dar com aquilo que inquieta o meu corpo e que se faz suspiros e sorrisos contidos. O meu silêncio diante dos meus sonhos – que insisto não existirem -, talvez expliquem aquilo que não vivo dentro de mim. Um homem assim como eu, que de palavra em palavra silencia pensamentos, sentimentos, jamais terá um mundo diferente do seu, pois nada é real nesse mundo onde o que somos são apenas as nossas palavras que dizemos e nada mais. Que o silêncio do corpo não diga nada, que o suspiro de paixão seja um olhar em lágrimas diante de quem se ama… para mim, seria vão qualquer talvez, porém, se a vida for assim? Talvezes e mais talvezes diante de tudo? Suportaria até mesmo mais uma vez, e outra e mais outra, mesmo assim, salvo esse impulso de coragem, seria inaudível qualquer suspiro de despedida.
Lamentações Extemporâneas
A vida se faz num movimento, as nossas relações são dadas em um constante conflito , num constante afirmar-se negando algo – seja a nós mesmos ou o outro (definição reativa)… Mas não estou a altura de Hegel para falar sobre o movimento da consciência, até porque nem sei se é tão simples explicarmos a vida, as relações, a história, com um jogo lógico, com uma dialética que funciona como um mecanismo progressivo do espírito … não preciso de Hegel para pensar sobre isso, por isso, paro por aqui. Há um tempo atrás, tive um sonho um tanto louco, mas ao mesmo tempo que fez muito sentido com aquilo que estava vivendo. Nesse sonho, alguém me disse: “A vida não é tão simples assim”, e realmente não é… Penso nas palavras de Nietzsche, que tenho utilizado bastante para balancear com o Iluminismo exacerbado de alguns deuses, diz ele: “Como tornamos tudo claro, livre, leve e simples à nossa volta! (…) Como conseguimos desde o princípio manter nossa ignorância, para gozar de uma quase inconcebível liberdade”. Ora, essas palavras vão justamente ao encontro do que sonhei, ou seja, criamos um mundo simples, dialetizável, cientificizado, na ilusão de que assim poderíamos dominá-lo; entretanto, vamos percebendo que os nossos castelos de conhecimento estão construídos em bases pouco sólidas. Conversando com os meus colegas de faculdade, chego cada vez mais a conclusão de que o pedantismo é o esporte preferido de alguns “filósofos”, por trás de todo aquele conhecimento “pela glória do espírito humano”, repousa um imenso orgulho, impulso de castelos de marfim, digo isso, pois quanto mais chego no final do meu curso, percebo o quanto a gente é ignorante em relação à vida, às coisas e que os ditos “grandes”, são aqueles que julgam que a sua teoria é um molde perfeito da realidade, ao ponto de poder impôr o seu pensamento ao mundo, pretendendo, assim, transformá-lo. Para mim, quanto mais a filosofia se afasta da academia, mas ela se torna livre. Parece que algo estranho está acontecendo, a vida se mostra cada vez menos dominável, e nós, humanos, símios pensantes, vamos ocupando o nosso lugarzinho nem tão glorioso assim.
Surtos Filosóficos em três movimentos

1º Movimento: Reflexões Amorosas (para Walter Benjamin)
Quem ama alguém como uma imagem, talvez ame uma busca e não uma pessoa. Esperando que o outro se molde e seja aquilo que ele não é… isso é um amor ideal: amar a si mesmo através do outro.
2º Movimento: Sobre o que não se pode falar (para Wittgenstein)
As palavras que escapam entre os meus dedos são angústias meu amor; expor o que brota do âmago do meu ser é sempre uma tarefa impossível… é tão grande a pretensão do meu dizer.
3º Movimento: Um pensamento que não se entende (para Adorno)
Um ser que acredita na redenção pela razão sofre ao pensar… o pensamento é sempre uma tarefa penosa, mesmo assim, é através dele que dominamos um mar revolto que é a vida, sabendo que o dominado está sempre pronto a te trair.
Fragmentos de um fracasso filosófico
“… A filosofia somente é mais do que um negócio onde ela se expõe ao fracasso total”. (Theodor Adorno – Dialética Negativa).
“Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me entende acaba por reconhece-las como contra-sensos, após ter escalado através delas – por elas – para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela). Deve sobrepujar essas proposições, e então verá o mundo corretamente. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. (Ludwig Wittgenstein –Tractatus Lógico-Philosophicus).
“Só sei que nada sei”. (Sócrates).
Um inferno entre o homem e o super-homem
… Precisava ele gritar mais forte do que o possível. Na verdade a sua angústia e o seu orgulho não saiam de seu corpo, tudo explodia em sua alma. Nunca fora tão difícil externar o que sentia, até porque o ser humano deveria ser superado, e por conseqüência disso, ele mesmo… isso significava o seu fim. Resolveu reconhecer a si mesmo, e um abismo lhe apareceu aos olhos, perdeu-se a si mesmo – um mundo até então nunca descoberto. No fundo sentia que para se ser o Super-homem era preciso ter sido um homem – o último homem -, o que hoje ele já era, sendo assim, meio caminho estava andado.
A dificuldade aumentou ao saber que ele seria um único, pois o super-homem deve ser mais do que todos e aí está a doutrina do super-homem: superar a todos e a si mesmo. Talvez superar a todos seja muito mais fácil do que superar a si mesmo – tão solitário e tão egoísta -, o seu grande problema.
Voltou-se para o abismo até então desconhecido e se viu tão ridículo, tão medíocre, tão humano. Onde estava o super-homem? Dentro de si? Para ele era preciso destruir consigo mesmo, um certo suicídio – não o que busca a morte enquanto a solução, mas o que busca a sua própria negação enquanto afirmação, o que soa um tanto paradoxal.
Em sua mente brotavam questionamentos… Voltar contra a sua própria cabeça a arma do super-homem? Viver uma vida que nada mais seria do que a negação de um ontem pela afirmação de um amanhã? Guerrear consigo mesmo? E o mundo lá fora, não existe?
Esse homem que até então aspirava a super-homem se viu tão sozinho, tão orgulhoso de si mesmo, uma certa auto-suficiência, pois quem se supera não necessita de nada além de si - os outros são meras perspectivas vazias que simplesmente balizam as nossas vidas.
O mundo dos demasiados humanos se voltou contra ele, já não tinha mais olhos para nada, buscava a si mesmo: uma ânsia de se saber. A idéia de superação lhe fazia ser uma mera negação de algo que ele não conhecia. O mundo lhe excluiu ou quem sabe foi o contrário? Viu-se doente, a doença do ideal que ele tanto condenava parecia tomar conta do seu ser, o super-homem era o seu ideal, a verdadeira negação da vida…
Em uma noite, em um daqueles dias em que ele andava cambaleando pelas ruas de seu mundo, conheceu um sábio que lhe fez pensar – aquelas pessoas que destroem a sua vida para erigir sobre ela algo novo. O diálogo foi rápido, mas muito significativo, pois não tinha o pudor dos amigos de longa data, que apenas querem preservar uma amizade, no fundo o sábio não tinha nada a perder… Para os olhos do sábio o super-homem era tão homem, mera criação, talvez uma poesia vagando por dentro de uma alma vazia.
Viu-se novamente tão humano, demasiadamente humano. Já não era mais possível superar a si mesmo, as tentativas sempre resultaram em estagnação, o super-homem repousou…
Depois disso a vida passou a ter um fim em si mesma: reconhecer o mundo e aceitá-lo enquanto tal. Desde já não havia para ele mais um super-homem, e sim um mero ser humano… Que inventou para si um ideal: uma mera referência a ser buscada, um super-homem.
