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O céu sabe como estou…
De tanto que chove, o frio passa a ser sentido de outra forma: ele se afoga em meio a um coração triste, que se faz lembrança e se perde na nostalgia de momentos jamais vividos – a lembrança é como uma faculdade que guarda em meu ser todas as minhas covardias e todos os medos que não me fazem cair de cabeça na vida. Geralmente nos dizem o que fazer, na maioria das vezes nos falam o que é certo, o que é errado, mas não nos falam de como seria a vida sem toda essa roupagem de covardia e fraqueza, que faz com que vejamos ela sempre de maneira bela: trajando um belíssimo vestido azul e calçando botinhas de cristal. No fundo, tenho me trancado em mim mesmo, no sonho de que me conhecendo eu conheceria o mundo, mas já é sabido, que quanto mais nos conhecemos, mas somos desconhecidos… esse movimento de desconhecer-se é sempre dolorido, pois ele é infinito e as vezes retorna com força, somos pego sentindo o que sentíamos, mas é claro que esse ressentir é apenas um afeto que corta a nossa carne, que estremece o estômago e descompassa o peito; assim, olhamos para o céu e nos perguntamos: “você sabe como estou me sentindo?”… ele apenas responde com suaves gotas frias, que só podem salgar o nosso rosto ao misturar-se às nossas lágrimas.
Deserto…

No deserto de uma folha em branco faço-me por inteiro: Canto com os cantos infinitos brancos, que de tão brancos silenciam ventos – tempestades de areia em um coração de andarilho. Quando fecho meus olhos, me faço sombra em um sombrio deixe estar. Meu nome talvez jamais seja sussurrado, mesmo sendo o vento do meu deserto infinito. Sinto o cheiro de nada que se aproxima de mim, as palavras não fazem sentido, mesmo sendo eu e uma suposta amada nativos silenciosos desse deserto preenchido liricamente por uma folha em branco.
Entre o Bem e o Mal
Há uma enorme contradição quando não podemos ter a pessoa que queríamos ter. O ser amado é objeto de um conflito de nossa razão, pois sofremos por ele e ao mesmo tempo o fim do sofrimento é ele – estando tanto para o inferno quanto para a redenção. Na distância que guardamos dele – como diz Barthes – “nos exilamos em nosso próprio imaginário”: deparando-se com um sentimento de impotência perante a vida, tentamos apagar a chama que queima, e em cada tentativa notamos que o fogo aumenta e queima ainda mais… Na alma daqueles que tiveram um amor não correspondido há uma linha tênue que separa o céu do inferno, mas não sabemos onde é o início e o fim de ambos, diante disso, em um silêncio profundo num tempo que não passa, equilibramo-nos em uma corda estendida entre o nosso amado e o nosso próprio exílio: entre imagens ideais e fugas desesperadas.
Ontologia do passa-tempo
Noto o quanto tudo corre, todos passam desesperados por mim, não sei se estou parado ou correndo também… Minha ansiedade quer respostas sem perguntas. O mundo corre e eu estou parado, o mundo acorda e eu estou dormindo, estou passando… Preciso de mãos que me segurem, lábios que me beijem, preciso me sentir útil, ser amado ou até ser odiado… ser notado. Provar que eu existo! A vida transcorre em um marasmo sem fim. ninguém viu… o mundo me atropela.
The Beatles – The Fool On the Hill
Voando por sobre o tempo e glorificando a sua impotência perante o seu destino. Apossa-se de sua alma a saudade de um futuro: sempre e sempre o que ainda não há, pois mesmo não sendo, lá é melhor. Quem é esse homem que brinca com o tempo e que vive em si mesmo as suas primaveras e seus invernos? Quem é esse homem que repousa na distância entre os seus olhos e o horizonte? Para a paz consigo mesmo é preciso algo forte: um amor qualquer ou até mesmo uma revolução… Na saudade do que virá, uma canção aos seus ouvidos: doce pretexto para justificar a sua vida “forçada” por um destino escrito por um deus qualquer.
Cartas Desesperadas…

Uma carta tem como fim expressar o sentimento de angústia de não poder falar aquilo que se quer para alguém. Pelo fato de pressupor uma distância relativa a dois sujeitos, uma carta sempre vai querer dar conta de vários fatos – se possível todos – vividos em uma pequena parcela de tempo. A razão de uma carta é sempre o encanto, é receber a visita de alguém distante, que apenas diz: “Veja só, eu ainda estou vivo e lembro de ti… Veja só como eu estou… Ainda lembras de mim?”. Só é sincera aquela carta enviada sem ser passada a limpo, pois ela reproduz exatamente o diálogo – a voz é a caneta que transita pela folha de papel. Aquele que não envia cartas já escritas se perde em uma idéia maluca de ao mesmo tempo querer ser o sujeito que escreve e o que receberá, transferindo a sua imagem e consciência para um outro, e portanto, sendo a medida de todas as coisas… Quem não envia cartas já escritas tem a pretensão de sentir – tentar – aquilo que o interlocutor sentirá… Em um mundo que a tecnologia substitui o encanto, uma carta enviada para alguém dizendo apenas: “Oi, tudo bem?”, já guarda em si mesmo uma imensa beleza – a expontaneidade expressa em uma folha de papel -, e para o nosso mundo cada vez mais racional-tecnicista, uma carta escrita nesses moldes tem em si mesmo algo de revolucionário.
Porto Alegre, 14 de Abril de 2006.
O que fazer em caso de incêndio?
Ele mal pôde expressar o que se passava em sua cabeça – cenas de filmes, músicas, bebidas, mulheres, telefones que não tocam, etc e tal. Há sempre uma angústia, há sempre algo que jamais pode ser alcançado, pois se assim não fosse a vida em nada teria graça, seria apenas uma simples sucessão de fatos-fracassos. Em sua mente as palavras de um mestre alemão “Trabalho, tormento, desgosto e miséria, tal é sem dúvida durante a vida inteira o quinhão de quase todos os homens. Mas se todos os desejos, apenas formados, fossem imediatamente realizados, com que se preencheria a vida humana, em que se empregaria o tempo?”. Além do mais “Um coração que se encheu como um aterro… um trabalho que te mata lentamente, feridas que não cicatrizam. Você aparenta estar tão cansado-infeliz. Derrube o governo, eles não, eles não falam por nós. Eu vou levar uma vida tranqüila…”. São tantas palavras que transitam por dentro de sua pobre alma… Ainda ontem, ao ver um extintor de incêndio explodir, viu naquilo uma sinfonia da lembrança e tomou para si os seus conflitos… Viu todo um projeto se destruir em dois minutos e ao som de uma canção, sentiu lágrimas resfriarem o seu rosto, viu-se tão só como nunca antes visto. Pegou alguns livros na estante – aquele seu Zaratustra de outrora já não lhe fere tanto, aquele “recompensa mal um mestre aquele que se contenta em ser discípulo” é tão frio, tão “ideal”. Quis correr para longe de tudo, serviu uma dose do bálsamo que anestesia todo o seu viver… O mundo gira e as canções se repetem, os beijos são tantos e sempre o mesmo, a alegria é trago ou tragada, e a poesia é aquela vazia, dita em vão, que expressa apenas… Nada. Gritos e mais gritos, palavras para consigo mesmo, paredes frias que fazem tudo ecoar… Vê em si um peso, uma filosofia vã e barata que nada diz, apenas impressiona ouvidos pedantes… A sua mão, os seus olhos, a sua alma – Tudo queima! Mas o que o que fazer em caso de incêndio? Deixou-se queimar…
Livres citações de Schopenhauer, Radiohead e Nietzsche.
O eclipse do filósofo
Sangrando: Conciliando o Corpo e a Alma
A idéia de uma escrita com sangue, isto é, com o espírito, como afirma Nietzsche na seção intitulada “Dor ler e escrever” no livro Assim falou Zaratustra, sempre me deixou inquieto, pois sempre entendi isso como um certo estar por inteiro, uma conciliação entre entre corpo e alma. Nietzsche, creio eu, afirma com isso que escrever com sangue é viver e ter vivido cada palavra que se disse ou que se diz.
Essa reflexão nietzscheana de alguma forma encontra uma correspondência na canção “Sangrando” de Gonzaguinha, pois, no caso dessa música, sangrar não significa meramente dizer o viver; mas sim, uma certa conciliação, isto é: dizer é viver, e sangrar, nesse caso, significa justamente “dizer a própria vida expondo-se por inteiro”, ou seja, viver o espírito é sangrar.
“Quando eu soltar a minha voz por favor entenda, que palavras, por palavras eis aqui uma pessoa se entregando. Coração na boca, peito aberto vou sangrando…”, é uma certa sinceridade levada ao extremo, uma sinceridade que não significa meras palavras que damos sentido ao ouvir, muito além disso, é dar o próprio corpo, assim como um ator em uma peça de teatro, que precisa fazer o seu corpo dizer aquilo que está dito nas palavras de um roteiro – um artista sangra na medida em que diz com o corpo.
Com toda razão alguém diria para mim que um ator encena, isto é, ele é na medida em que está em um palco e, portanto, o seu viver é relativo aquele momento – a sua sinceridade é falsa. Todavia, para mim sinceridade é efetivação do presente, estar por inteiro naquele momento, por isso que a sinceridade do ator é intensa, é verdadeira.
No caso das palavras de Gonzaguinha, poderíamos pensar em um diálogo com alguém, quando não apenas falamos, mas dizemos com os olhos, desejamos – desejo no sentido de querer entender o outro -, queremos viver o outro em nós mesmos – queremos encontrar-se com o outro. Todavia, se pensarmos novamente naquelas palavras, veríamos que o compositor ao pedir a caridade de quem o ouve, traz consigo uma certa angústia, pois ele quer provar aquilo que é improvável: um sentimento. Não é à toa que ele diz: “veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos. E o meu corpo tão suado, transbordando toda a raça e emoção”, mesmo assim, ele está dizendo que é possível entender as suas palavras olhando para o seu corpo. Portanto, podemos dizer muitas coisas mesmo em silêncio.
Para finalizar essa breve reflexão, gostaria de trazer um trecho da “Gaia Ciência” de Nietzsche, que vai ao encontro das palavras de Gonzaguinha: “Não somos batráquios pensantes, não somos aparelhos de objetivar e registrar, de entranhas congeladas – temos de continuamente parir nossos pensamentos em meio a nossa dor, dando-lhes maternalmente todo o sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade que há em nós, transformar continuamente em luz e flama tudo o que somos, e também tudo o que nos atinge; não podemos agir de outro modo”. Com isso, podemos dizer que os nossos pensamentos são resultados daquilo que vivemos, daquilo que sentimos no corpo: as diversas forças que nos compõem… As palavras de Gonzaguinha em si são a afirmação da vida em toda a sua potência, força e angústia – “apenas o seu jeito de viver o que é amar”, e amar nesse caso, é sangrar, é viver o espírito em toda intensidade.
O Caráter Destrutivo
É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo “caráter destrutivo” todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.
O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.
O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.
O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.
O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercar-se continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.
O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.
O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos – essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.
O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.
O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.
O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.
O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.
Walter Benjamin In: Imagens do Pensamento

