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Surtos Filosóficos em três movimentos

1º Movimento: Reflexões Amorosas (para Walter Benjamin)
Quem ama alguém como uma imagem, talvez ame uma busca e não uma pessoa. Esperando que o outro se molde e seja aquilo que ele não é… isso é um amor ideal: amar a si mesmo através do outro.
2º Movimento: Sobre o que não se pode falar (para Wittgenstein)
As palavras que escapam entre os meus dedos são angústias meu amor; expor o que brota do âmago do meu ser é sempre uma tarefa impossível… é tão grande a pretensão do meu dizer.
3º Movimento: Um pensamento que não se entende (para Adorno)
Um ser que acredita na redenção pela razão sofre ao pensar… o pensamento é sempre uma tarefa penosa, mesmo assim, é através dele que dominamos um mar revolto que é a vida, sabendo que o dominado está sempre pronto a te trair.
A vida não vive…
Lembro que há uns dois anos atrás tentei pegar a “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer para ler. Lembro de não ter entendido nada, de não compreender que proposta era aquela que os próprios autores reconheciam ser muito pretensiosa. Entretanto, dois anos depois, um pouco mais “esclarecido”, pude revisitar essa obra que, como nenhuma outra antes, me pareceu tão atual – talvez seja a distância de tempo, apenas 63 anos, que em filosofia não significa quase nada. Na real os autores trazem uma questão que sempre me inquietou nesses meus poucos anos de vida: como o sistema pode tomar para si aquilo que, aparentemente, representa a sua destruição? Como criticar aquilo que ao ser criticado regozija-se, pois a crítica aumenta ainda mais o seu poder? E, ainda mais, como viver uma vida em um mundo onde a vida já não vive? Em um momento em que a moda, em que o pensamento “libertador” nos aprisiona cada vez ao mundo, uma perspectiva crítica, clama por uma não-linguagem, por uma não-estética, por uma não-ética, por uma não-filosofia, por uma negação da obviedade – daquilo que o pensamento pode expressar em argumentos… Fugir de tudo aquilo que pode ser facilmente apreendido pelo mercado, pela técnica – transcender a nossa própria racionalidade.
Perceber o projeto de Adorno, que entre os dois filósofos é o que mais conheço devido aos diálogos com um amigo meu, é conhecer um filósofo que tinha um profundo respeito por quem o lia, tendo em vista, a dificuldade de entendê-lo, o que exige demais do leitor, isto é, respeita esse em sua dignidade, incentivamento a transcender-se a si mesmo. Um autor que jamais sonhou em ser um best-seller, mas o contrário, quis ser livre e fugir para além da nossa limitação racional. A perspectiva da Teoria Crítica talvez seja tão atual e tão emergente nesse contexto de “final dos tempos”, talvez a nossa tarefa enquanto educadores seja: “Educar para que Auschwits jamais se repita”, isto é, educar para que a barbárie, que o terror jamais se repita, esse é o imperativo ético de todo educador crítico – que limpa o caminho para o pensamento, que tenta desacorrentar-se das amarras da produção, do consumo. Esse, mais do que nunca, deve investigar a vida, a sociedade, a ciência, a educação e buscar nesses “territórios”, em suas reflexões, centelhas de liberdade: abrir espaço, abrir espaço…
Entretanto, essa tarefa é extremamente difícil, pois todo pensamento livre, não é livre… A racionalidade instrumental, uma razão que apenas busca sobreviver, isto é, conformar-se a realidade, foi a escolha que fizemos – que fizemos? Ou que fizeram?… Toda filosofia, que tem se apresentado como uma nova filosofia, e que se tornou moda por essas bandas, se tornou presa do sistema, que defendendo uma volta aos “instintos”, negou a razão, representando, ao meu ver, não uma libertação, mas um diagnóstico da falência do pensamento, do desespero social, que faz as pessoas esquecerem que pensam, pois pensar, ir além da vida cotidiana, é uma tarefa dolorosa… O pensamento crítico, é em si angustiante, penoso, solitário e, por isso, livre… Negar a vida que não vive, talvez seja a própria afirmação da vida, trilhar um outro caminho: como um andarilho e a sua sombra… Esse talvez seja o peso que quem quer ser livre deve carregar.
Escrito em junho de 2007 .
Por uma educação da filosofia
Aristóteles afirmou que é da natureza humana querer conhecer; o ser humano, segundo ele, tem um impulso natural ao conhecimento, sendo isso o que nos diferencia dos outros animais, pois esses podem sentir cheiro, ouvir, olhar, tocar e sentir o gosto de algo – os sentidos são a mediação entre o entendimento1 e a natureza. Nesse caso, os animais, que supostamente não possuem entendimento, conhecem no simples ato de sentir. Entretanto, mesmo partilhando com nós, humanos, o ato de conhecer, os animais não podem desejar o conhecimento e, por isso, não podem amar a sabedoria.
Essa sentença aristotélica me deixa um pouco perplexo quando penso em educação, ainda mais levando em conta as observações que tive a oportunidade de fazer para as cadeiras de Didática Geral e Prática de Ensino em Filosofia I2, pois me deparei com o desinteresse escolar, isto é, estava diante de uma situação em que os alunos pareciam não querer o Conhecimento, pois o desinteresse pelo conteúdo, em todas as aulas que observei3, era bem visível. Poderíamos deduzir, a partir dessa breve argumentação, que os alunos são animais não humanos? Não… não somos ignorantes o suficiente para afirmar isso.
Para tentar solucionar esse problema, podemos nos voltar à idéia de Aristóteles. A idéia de conhecimento para Aristóteles, está muito ligada ao deleite próprio, isto é, o sujeito busca o conhecimento por que isso é prazeroso, ele regozijasse no ato de conhecer, e como qualquer relação amorosa, os dois amantes, nesse caso, sujeito e conhecimento, estão em harmonia, em uma relação prazerosa. Aristóteles coloca a vida contemplativa, a vida do filósofo, como a vida dignamente humana por excelência4; mas, como essa busca é autônoma, isto é, filosófica, ela jamais deve ser imposta. Naquele caso, se pode falar em amor a sabedoria, pois é algo que o sujeito busca para si, para a sua vida, muito diferente de um aluno ser obrigado a estar em uma sala de aula, pois a racionalidade social lhe impõe que um diploma é importante para a vida, para a sua “autonomia”.
Essas reflexões servem apenas para refletirmos um pouco sobre o Conhecimento, ou melhor, aquilo que julgam ser O CONHECIMENTO necessário para a vida dos alunos, tendo em vista que, ao meu ver, ainda vendem na Escola, pelo menos nas aulas que eu observei, que o “conhecimento pelo conhecimento” é importante para a vida dos alunos, como se os professores quisessem vender uma vida contemplativa as avessas, uma vida contemplativa imposta, onde nem o deleite próprio é possível. Creio que seríamos muito hipócritas se admitirmos que o conhecimento, nesse caso prefiro usar a palavra conteúdo, é algo útil para a vida dos alunos – o que é útil para a vida dos alunos é eles passarem de ano, e é fato de que existem muitos alunos que passam na escola sem aprender quase nada, alguns nem mesmo sabem escrever direito, entretanto, estão com aquilo que é útil para a vida deles: o diploma.
Com isso, após essa “crítica” pouco construtiva, mas que ao meu ver é em si importante, pois uma Filosofia da Educação é urgente em épocas em que o pensamento pragmático, aquele que se preocupa apenas com o “como ensinar” deixando de lado os: “por que ensinar” e o “para que ensinar”, toma conta de toda a sociedade. A educação se transformou em habilitar os alunos a se adaptarem “autonomamente” aos meios, e nós, professores, quando se voltamos apenas para o “como ensinar”, partimos do pressuposto que a resposta já está dada, pois a solução do problema é a eficácia da formação, que nada mais é do que tornar os alunos aptos a viver nesse mundo assim dado – não conseguimos fugir da lógica, como diz Adorno:
“O sonho da formação – a libertação da imposição dos meios e da estúpida e mesquinha utilidade – é falsificado em apologia de um mundo organizado justamente por aquela imposição. No ideal de formação, que a cultura defende de maneira absoluta, destila-se sua problemática”5
Porém, para não me estender em minhas reflexões, quero pensar especificamente no ensino de filosofia, pois o momento da “filosofia da educação” já cumpriu o seu dever, e agora, devemos nos voltar para o momento da “educação da filosofia” – que ainda sim não deixa de ser uma “filosofia da educação -, tendo em vista que, o ensino de filosofia, ao meu ver, pelo menos aquele que observei, deve ser repensado, reeducado. Pois, ainda acredito que podemos pensar em um ensino que tenha como fim a autonomia do aluno – mas qual ensino não tem? -, mas o desafio maior é pensar como transcender aquela lógica que Adorno menciona, tendo em vista que, o mundo impõe normas de sobrevivência. Entretanto, creio que nem mesmo a escola tem desempenhado esse papel, contudo, sei que é muita pretensão fazer aquilo que o próprio Adorno não conseguiu fazer: libertar-se do manto sombrio da racionalidade instrumental6. Não obstante isso, com todo o otimismo de um aspirante a professor de filosofia, a questão essencial dentro da própria lógica da vida atual, é pensar na utilidade da filosofia, questão que para os puritanos do conhecimento é uma heresia, pois, para eles, a filosofia deve ter um fim em si mesmo, e isso é mais cômodo, pois ela nunca se põe a prova.
Como havíamos visto em Aristóteles, a filosofia é o exercício daquilo que nos é natural. Havíamos visto também, que a filosofia é uma ação, um movimento em busca de algo, o conhecimento e a verdade; por isso, a filosofia não é um fim em si mesmo, mas sempre um meio para um fim. Nesse caso, a filosofia esta voltada para a vida prática, vida essa que tem como fim a felicidade, isso quer dizer que a busca por conhecimento está voltada à ação do sujeito no mundo em função da felicidade7. Isso de alguma forma é dito por Kant em seu Cânone da Razão Pura8, quando ele diz que quando nos perguntamos sobre a existência de Deus, no fundo queremos responder à pergunta: “o que eu deveríamos fazer caso Deus existisse?”. Posso dizer, com isso, que o conhecimento, a verdade, é sempre algo relacionado com o agir no mundo, isto é, está em relação direta com a vida e a realidade a qual vivemos. Mas, será que o conhecimento passado na escola leva em consideração a vida prática? Se leva, por que os alunos se mostram tão desinteressados? Será a escola um espaço da construção de conhecimento?
Eu tenho certeza que essas perguntas não são nada fáceis de responder, entretanto, são questões que me inquietam e passaram a fazer parte da minha vida, tendo em vista a proximidade do meu estágio. Assistir a uma aula de filosofia, ao invés de me animar, quanto ao ensino de filosofia, me deixou ainda mais inquieto, pois a sociedade espera que a filosofia salve-nos da suposta crise de valores que vivemos9.
Em uma das aulas que observei, após um pequeno problema entre os alunos, a diretora da escola deu uma “visitada” à sala de aula, e tratou de ressaltar para os alunos que a filosofia é importante para o exercício da cidadania. Entretanto, o pequeno problema entre os alunos, era a organização de um abaixo-assinado contra o espelho de classe10 – organização de alunos não é exercício de cidadania? Ora, sendo a filosofia o exercício em vistas à vida prática, não haveria nada de filosófico nessa organização dos alunos? Não estavam fazendo política? Não estavam sendo cidadãos? Para a diretora não, ela tratou de ressaltar que o espelho de classe serve para ajudar no trabalho do professor, e que os alunos devem ir para escola para estudar – estudar é buscar conhecimento?
Em outra aula que assisti, o professor desenvolveu um trabalho sobre a prevenção da gravidez precoce. Os alunos se dividiram em grupos, e trataram de conversar sobre tudo, menos sobre o tema – o trabalho em grupo, como muitas vezes acontece, fica na mão de um aluno, e os outros ficam conversando. O tema foi pouco discutido na aula, o professor apenas deu o tema e pediu para os alunos escreverem sobre. É claro que os alunos, a essa altura, todos com mais de 15 anos, na sua maioria, sabem como prevenir a gravidez, a mídia bombardeia eles todos os dias com campanhas, por isso, para abordar o tema, basta falar sobre aquilo que se ouviu, isto é, dizer a resposta certa, sem refletir no porquê dessa resposta e no que está por trás disso. Quero dizer com isso, que a aula que vi não era nada reflexiva, não conseguia transcender o senso-comum, e sem refletir sobre isso, os alunos continuam reféns do discurso da mídia, do discurso dos governos, que tem interesses com a alienação das pessoas. No caso da aula, a falta de seriedade na discussão era explícita, pois vários alunos não sabiam o que queria dizer a palavra “precoce”.
Estava claro que os alunos não estavam afim de discutir aquele tema, o que em si já era uma afronta ao movimento interessado do aluno, que deveria ser pressuposto em um ensino de filosofia, pois a reflexão deve ser algo motivado pelo assunto. Não obstante isso, os alunos apenas escreveram aquilo que o professor queria ouvir, ou seja, a resposta “certa”, a resposta “cidadã”. O que podemos pensar com isso? Que os alunos sabem de uma forma ou de outra, a regra do jogo, a regra para passar de ano, para ganhar o diploma. Eles conhecem a “racionalidade institucional” que paira sobre a escola, e esse ensino das regras da instituição escolar, não pode ser tarefa da filosofia. A filosofia deveria pressupor essas regras e constantemente às superar, pois se assim não agirmos, simplesmente estaremos girando em torno de uma lógica e jamais a superamos, jamais nos libertamos desse círculo vicioso de ensinar as regras do jogo para melhor se dar bem – levar vantagem de maneira mais eficaz. Mas o que seria, nesse caso, uma educação da filosofia?
Quando penso em filosofia para o jovem da escola, não penso apenas em refletir com ele sobre como ele deveria agir no mundo, mas, além disso, como agir no mundo com vistas a sua superação, isto é, além de conhecê-lo é preciso transformá-lo. Penso em uma reflexão criadora, pois sendo a filosofia um meio, ela cria-o constantemente. Podemos pensar em uma crítica ao mundo, podemos pensar em uma conscientização, mas que seja conscientização acerca da liberdade, aquela que permite, como diz Paulo Freire, a pessoa poder “ser mais”. Ensinar filosofia é desaprender muitas coisas, desaprender limites, desaprender regras, desaprender morais, para que, após esse desaprendizado, o jovem possa criar, discutir possibilidades com os colegas e ir além desse mundo limitado pelo consumo e pela culpa. A filosofia tem que ser um exercício de esquecimento, para renascer, a partir disso, a possibilidade efetiva do pensamento livre – aquele que transcende a si mesmo em um movimento constante. A filosofia é um movimento sem fim, de desconstrução e construção, onde o aluno se vê enquanto sujeito da sua história, essa que ele passará a recriar diariamente, no exercício prático da filosofia, com vistas a sua formação no mundo, a sua felicidade, a sua autonomia.
REFERÊNCIAS:
ADORNO, Theodor. Teoria da Semicultura. In: Revista Educação e Sociedade, nº 56, Dezembro de 1996. Campinas: Papirus.
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor LTDA., 1986.
ARISTÓTELES. Ética a Nicomacos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.
1Entendimento não como o simples espaço de nossas representações, mas o espaço onde as nossas representações se transformam em idéias, e essas, através da Razão, são ligadas umas as outras, dando origem aos nossos juízos.
2Cadeiras Obrigatórias do 7º Semestre do curso de graduação, cursadas em 2007/1.
3Foram o total de 10 observações a aulas de filosofia para 6 turmas de Ensino Médio, divididas entre os 3 níveis deste.
4ARISTÓTELES, 2001. p.201.
5ADORNO, 1996. p.392.
6ADORNO; HORKHEIMER,. 1986. p. 13.
7Tomo por felicidade, o conceito de Aristóteles “Eudaimonia”, que segundo ele, é a vida boa e justa conforme a razão, isto é, a idéia de autonomia está presente.
8KANT. 1996. p.476
9A obrigatoriedade do ensino de filosofia é uma questão antiga, mas que ganhou força após o problema do “mensalão” no governo e após o final da novela “Belíssima” em que a vilã, Bia Falcão, ao invés de se dar mal no final, se dá bem, e isso por que a audiência assim o quis.
10Layout da sala, onde cada aluno tem um lugar certo para ficar. Isso é feito para separar uns alunos dos outros, para disciplinar.
