Sujeito da Falta ou Sujeito da Potência?*
Elaborar uma discussão acerca da psicanálise e da esquizoanálise, que tenha como finalidade pensar ambos os campos de forma a torná-los claros e distintos, não é uma tarefa simples, pois além do segundo representar uma crítica radical ao primeiro, no que diz respeito a uma análise da subjetividade, eles têm por pressupostos teóricos concepções distintas de sujeito. Dessa maneira, estamos diante de duas concepções, aparentemente, nada complementares, a saber: Sujeito da Falta e Sujeito da Potência. Na base dessas questões, no entanto, temos duas concepções distintas de desejo, uma que o orienta para algo que falta ao sujeito, e outra que é a produção de um agenciamento.
O desejo tem sido foco de discussões filosóficas desde a antiguidade, dizendo respeito tanto a ética quanto a política. Um exemplo disso é a discussão feita por Aristóteles na “Ética a Nicômacos”, onde o desejo aparece em oposição à ideia de escolha (2001), visto estar ele ligado à sensação, sendo comum aos outros animais. Contudo, essa modalidade de desejo seria o que entendemos por instinto, ou seja, aquilo que está ligado à nossa preservação natural: fome, sede e sexo. Por outro lado, diferente dos animais, os homens podem desejar coisas racionalmente, portanto, existe uma modalidade de desejo que diz respeito à deliberação e à escolha daquilo que tomamos como um bem. Com isso, percebemos que o desejo está sempre relacionado a algo exterior ao agente, embora exista um aspecto subjetivo desse, pois o agente deseja a finalidade, o bem que aquilo pode trazer. Em certa medida se deseja aquilo que falta.
Seria uma imensa injustiça dizer que a psicanálise tem a sua influência em Aristóteles, pois em sua filosofia não existe uma noção de subjetividade e muito menos de inconsciente. No entanto, trouxemos um pouco do pensamento de Aristóteles para pensarmos em que sentido essa ideia de desejo enquanto falta é secular. Entretanto, podemos dizer que é somente em Georg Wilhelm Friedrich Hegel, nascido em 1770, que há uma relação direta entre consciência e desejo. Segundo o filósofo, é através do desejo consciente que a consciência de si assume a sua primeira identidade. Esse desejo consciente nada mais é do que uma relação que ela mantém consigo mesma, como se no “desejar”, o seu próprio “eu”, puro e simples, se tornasse objeto de desejo para ela mesma. No entanto, esse desejo consciente, que torna o sujeito objeto para si mesmo, tem uma relação com a exterioridade, isto é, o sujeito volta-se para fora-de-si, mas esse voltar-se para fora é ao mesmo tempo estar em si, ele tem um caráter duplo, pois o sujeito deseja um objeto que está fora dele, mas, mesmo assim, esse objeto está nele (como representação), pois é objeto de desejo dessa consciência de si.
A consciência de si, nesse primeiro momento, deseja a si mesma por meio do mundo: “o término do desejo não é o objeto sensível, como se poderia crer de modo superficial – ele é tão somente um meio -, mas a unidade do Eu consigo mesmo. A consciência de si é desejo; porém, o que deseja, sem que ainda o saiba explicitamente, é ela mesma” (HYPPOLITE, 2003, p.175). A consciência de si em seu primeiro momento, portanto, constitui a sua identidade desejando e negando o mundo, em uma relação de imediatez consigo mesma: imediatez mediada pelos objetos do mundo, que constituem para ela coisas a serem consumidas, destruídas. Desse modo, o desejo é parte essencial da consciência para conhecer-se enquanto tal, contudo, ele está sempre direcionado a sua exterioridade, àquilo que ela não tem. O desejo, enfim, é aquilo que torna um sujeito autoconsciente em um movimento constante: cada desejo saciado é o início da busca por outro objeto a ser desejado.
Se por um lado o desejo parece explicitar apenas a unidade reflexiva da consciência em Hegel, ou seja, aquilo que torna o sujeito, relativamente, auto-suficiente; por outro lado, em Jacques Lacan, o desejo parece ser a própria incoerência dessa unidade reflexiva, sendo remetido a uma instância inconsciente, uma trágica dimensão de uma falta que jamais será resolvida: o sujeito está submetido a uma impossibilidade de uma completude, de uma unidade consigo mesmo.
O desejo, portanto, aparece como uma fenda, uma discrepância, um significante ausente e, neste sentido, só aparece como aquilo que não pode verdadeiramente aparecer. Isto porque o desejo nunca se materializa ou se concretiza na linguagem, mas é apenas indicado através de seus interstícios, ou seja, através daquilo que a linguagem não pode representar em termos absolutos (PEIXOTO, 2004, p.114).
O sujeito, nesse contexto, é atravessado pelo caráter paradoxal do desejo, que é “ao mesmo tempo memória do gozo infantil perdido e fantasia de sua recuperação” (PEIXOTO, 2004, p. 117). Assim, nesse jogo entre falta e plenitude, entre ilusão e consciência, o sujeito é o que é em função de uma castração, e vive em constante busca daquilo que inconscientemente está perdido. Esse sujeito pode ser caracterizado como o da falta, que, diferentemente de Aristóteles, que tinha uma modalidade de desejo racionalmente orientado para aquilo que é tomado como um bem, vive orientado por um bem que não sabe o que é, pois não está para a dimensão da razão, isto é, vive arrastado por um impulso originado por uma falta elementar e essencial a sua condição de sujeito.
A caracterização do sujeito da psicanálise como um sujeito da falta, da castração, é pejorativo quando pensado a partir do ponto de vista dos seus críticos. Contudo, essa é a maneira como ela é concebida pelos autores que viam na psicanálise uma perspectiva limitada de mundo e de sujeito. O desejo, nessa visão, é sempre reativo, sempre do ponto de vista de uma negação, não tendo relação com a possibilidade de uma afirmação da vida. Desse modo, a vida não seria um transbordamento de forças, mas uma constante luta pela vida, no fundo, o que está em jogo com uma concepção do desejo enquanto falta é um certo pessimismo em relação ao humano.
Havíamos falado no início do texto que a psicanálise nos proporciona uma visão de desejo enquanto falta, em oposição a noção de desejo enquanto agenciamento, noção do ponto de vista da esquizoanálise, proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Essas concepções, longe de serem visões coerentes entre si, afirmam visões éticas muito distintas, e é sobre o desejo e o sujeito esquizoanalítico que vamos refletir a partir de agora.
Deleuze (2009), ao falar sobre a concepção de desejo que compartilhava com Guattari, afirma que:
Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto.
O desejo, nesse sentido, está para além de uma relação com um objeto da falta, pois só podemos falar em falta quando delimitamos precisamente um objeto ou determinado sentimento; no entanto, essa delimitação se dá em função de uma noção muito precisa de sujeito e predicado, ou seja, gramaticalmente o verbo desejar liga sempre um sujeito a apenas um objeto. Desse ponto de vista, desejar um conjunto implicaria diversos desejos diferentes entre si, mas cada desejar estaria orientado sempre à uma coisa. Deleuze, ao contrário, está dizendo que desejamos sempre um agenciamento, diante de um “acoplamento de um conjunto de relações materiais e de um regime de signos correspondentes” (ZOURABICHVILI, 2004, p.8). O que temos aqui é uma relação muito mais ampla de desejo, além de uma concepção diferente de vida, pois o desejo é atributo de um sujeito que para existir vive um constante agenciar, ou seja, o indivíduo é indissociável das instituições que o rodeia, ou melhor, a existência de um sujeito é um agenciamento, um acoplamento com diversas visões, concepções e produções de seu tempo. A condição do sujeito humano é ser um agenciamento: uma implicação de forças e relações de poder.
Ora, podemos perceber agora um distanciamento muito grande da concepção de desejo da esquizoanálise em relação à psicanálise. Para essa, o desejo está ligado a um objeto, que do ponto de vista de uma noção de inconsciente, é uma busca constante daquilo que lhe foi tirado. Já para a aquela, o desejo é sempre a produção de um agenciamento, por exemplo, não desejamos apenas determinado livro, desejamos o conhecimento que ele vai nos proporcionar, o prazer que teremos ao lê-lo, os assuntos que poderemos trocar, as relações com outros livros lidos que vamos poder fazer – um acoplamento desses desejares; assim, o desejo vai sempre produzir uma relação constante entre “coisas”. Dessa maneira, a condição do “inconsciente esquizoanalítico” é a produção.
Félix Guattari e Suely Rolnik nos apresentam uma visão muito precisa do que é a esquizoanálise em contraposição a psicanálise:
A esquizoanálise faz, ao contrário, um esforço de mobilização das formações coletivas e/ou individuais, objetivas e/ou subjetivas, dos devires humanos e/ou animais, vegetais, cósmicos… Ela se interessa por uma diversificação de meios de semiotização e recusa qualquer centramento na subjetividade na pessoa, supostamente neutra e benévola, de um psicanalista. Ela abandona, portanto, o terreno da interpretação significante por aquele da exploração dos agenciamentos de enunciação, os quais concorrem para a produção de “afetos subjetivos” e “efeitos maquínicos” (refiro-me a tudo aquilo que envolve uma vida processual, uma problemática que se afaste, por pouco que seja, das redundâncias estratificadas, um philum evolutivo – seja de que natureza for: biológica, econômica, social, religiosa, estética, etc) (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 268)
A esquizoanálise está orientada para além de um sujeito fundante: ela está mais preocupada com os agenciamentos coletivos, dizendo respeito mais precisamente às relações sociais, às instituições e às produções coletivas de desejo. Nesse sentido, podemos perceber que a esquizoanálise introduz um sujeito transpassado pela vida social, onde não interessa analisar uma unidade da subjetividade, mas os acoplamentos nos quais determinados sujeitos vivem ou produzem. Enfim, a esquizoanálise está muito mais para uma exterioridade enquanto a psicanálise está para uma interioridade. Entretanto, não podemos confundir exterioridade como entende a filosofia hegeliana: como a mediação para a autoconsciência. Assim, exterioridade seria, no máximo, agenciamentos coletivos.
Os campos de análise da psicanálise e da esquizoanálise são extremamente distintos, as noções de sujeito e de desejo, representam apenas palavras com conceitos divergentes, isto é, estão em jogo concepções de filosofia e de mundo diferentes. Entretanto, a questão elementar que se apresenta nesse momento, seria, a saber: representa a esquizoanálise e a psicanálise apenas campos distintos ou o fracasso de uma determinada análise em relação a outra? Ora, a resposta a essa pergunta corroboraria para a discussão acerca de uma concepção de sujeito na contemporaneidade, no fundo é essa a questão que está em jogo com essa discussão acerca dos sujeitos possíveis em ambos os campos. Não se trata de fazer uma defesa de uma em detrimento de outra, mas, em função dessa tensão, analisar o nosso tempo, fazendo aquilo que Michel Foucault chamou de uma “ontologia do presente”, isto é, a resposta a pergunta: “O que estamos fazendo de nós mesmos?”.
Esse tipo de análise à maneira de Foucault, em nossa visão, se aproxima muito das análises esquizoanalíticas, pois desenvolvem uma reflexão em consonância com o nosso tempo, colocando as análises subjetivas como análises dos modos de subjetivação, isto é, dos devires humanos. Dessa maneira, a esquizoanálise parece ser um campo que, analisando a produção dos desejos sociais, e percebendo o próprio vir-a-ser da vida como produção coletiva, tentaria explicar determinadas relações que alteram-se constantemente pois são sempre (re)produzidas: a própria esquizoanálise pode ser uma produção que se acopla à existência – ela tenta estudar o devir de dentro do próprio devir, ela própria é um agenciamento.
Em relação às discussões desenvolvidas em nosso seminário, foi possível tangenciar uma certa “esquizoanalização da psicanálise”, ou seja, uma análise esquizo da psicanálise. Assim, produzimos um agenciamento teórico e um devir filosófico, onde, à maneira de Nietzsche, tensionamos o arco e lançamos a flecha: afirmamos diferenças e geramos tensões, lançando a frente as perguntas que orientarão novas e mais novas questões para os próximos seminários que virão – tensionaremos ainda mais o arco!
Referências Bibliográficas
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
DELEUZE, Gilles. Abecedário. Disponível em <http://geocities.yahoo.com.br/polis_contemp/dossie_deleuze_textos/Deleuze_abecedario_integral.pdf> . Acesso em: 08 junho 2009.
GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolíticas: Cartografias do Desejo. Petrópolis: Editora Vozes, 1986.
HYPPOLITE, Jean. Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito de Hegel. São Paulo: Editora: Discurso Editorial, 2003.
JUNIOR, Carlos Augusto Peixoto. A Lei do Desejo e o Desejo Produtivo: Transgressão da Ordem ou Afirmação da Diferença? PHYSIS: Revista Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n.1, p. 109-127, 2004.
ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze. Rio de Janeiro: Editora: Relume Dumará, 2004.
* Texto desenvolvido para o “Seminário: Desejo e Instituições”, disciplina em parceria entre PPG de Psicologia Social e Institucional da UFRGS e Associação Psicanalítica de Porto Alegre.


oie, Marcos!!!!
Li interessadissíma esse texto, pois penso quase que cotidianamente na rela;áo entre esquizo e piscanálise. Mas, parece que ainda há buracos náo explicados nessa relaçao. Vale a pena tb ler a posicáo dos psicanalistas que se prestam a escrever sobre isso…
Bjos
Fernanda Cesaro
05/07/2009 em 3:17 pm