No dia 5 de dezembro de 1783 Kant escreve um texto chamado: “resposta a pergunta: O que é o esclarecimento?”, onde ele afirma que o homem vive em sua menoridade da razão por culpa própria, por não ter coragem de levar a sua razão até o limite, a ponto de não depender de mais ninguém para pensar e, por isso, para agir. O esclarecimento é a liberdade do homem quando encarna em si mesmo a razão de ser por si só. Segundo Fichte, outro filósofo alemão, e que foi aluno de Kant, o filósofo de Königsberg foi a “Razão Pura Encarnada”. É bom lembrar que Kant foi o filósofo que acabou com a metafísica racionalista, após o filósofo a pretensão de provar a imortalidade da alma, a existência de Deus e a liberdade com argumentos que desprezem a experiência sensível, não podem ter qualquer pretensão científica, pertencem somente a ordem da razão, ou seja, não podemos conhecer esses temas, mas podemos pensar sobre; no entanto, sabemos que a ciência mudou, mas sobre isso não tenho o que falar. O tempo de Kant era o tempo dos homens se esclarecendo, mas não dos homens esclarecidos, não obstante isso, o filósofo teve coragem de tomar as rédeas da própria vida através da sua própria razão. E nós, será que temos coragem o suficiente? Vivemos em um tempo um tanto estranho, aquele homem que estava em vias de esclarecimento, saindo da fase de tutela da Igreja – que pensava e determinava o que era verdadeiro -, hoje está cada vez mais perdido em si mesmo, os seus sonhos são os da massa, parece que todos os homens querem o mesmo, como diz Nietzsche: “conseguimos desde o princípio manter nossa ignorância, para gozar de uma quase inconcebível liberdade”, essa liberdade é a nossa fé: em um mundo melhor, em uma vida melhor, mas tudo baseado na troca, na técnica, no consumo, no progresso; caminhamos todos para os confins de um lugar inexistente, tutelados pela propaganda que promete um novo amor, uma nova felicidade, ou por uma religião, que julga ter razão, quando apenas cometeu barbáries e mais barbáries em todo o decorrer da história. Somos tutelados pelo Estado que dita as regras a serem seguidas antes mesmo de nascermos, por um emprego que diz o que temos que fazer nos comprando e, por fim, julgamos que o otimismo é a única coisa que nos resta, no entanto, não temos a coragem de dizer que esse otimismo é só uma maneira de nos conformarmos com as injustiças que vemos todos os dias. Ao meu ver, se a sentença de Kant for verdadeira, somos todos covardes, mas temos medo do que então? Se o esclarecimento é a própria liberdade, temos medo daquilo que Paulo Freire chama de “esvaziamento da liberdade”, uma liberdade que não reconhece os seus próprios limites, que vai para além e mais além, sem saber onde vai parar, pois a sede de infinito é a angústia de não saber onde todo esse esforço para ser livre vai dar. Em um mundo onde a cultura é cada vez mais metodológica, qualquer problema tem método para resolver, qualquer crise existencial tem livro para ler, qualquer amor perdido tem filme para ver, esse “esvaziamento da liberdade”, que talvez seja o próprio esclarecimento, é uma utopia, não somos livres e tampouco transcenderemos os limites do nosso tempo, costumo dizer ironicamente: “se Jesus não voltar estamos ralados”; e para finalizar, acho que ainda somos homens se esclarecendo, no entanto, estamos, no que diz respeito à razão, muito atrás de Kant, Hegel, Fichte, Schelling, Goethe, Schopenhauer, Hölderlin, Beethoven, Mozart, Marx, pois, esses sim, estavam se esclarecendo… E nós? Só resta-nos a fé…
Esclarecidos?
13/05/2008 por Marcos