A vida se faz num movimento, as nossas relações são dadas em um constante conflito , num constante afirmar-se negando algo – seja a nós mesmos ou o outro (definição reativa)… Mas não estou a altura de Hegel para falar sobre o movimento da consciência, até porque nem sei se é tão simples explicarmos a vida, as relações, a história, com um jogo lógico, com uma dialética que funciona como um mecanismo progressivo do espírito … não preciso de Hegel para pensar sobre isso, por isso, paro por aqui. Há um tempo atrás, tive um sonho um tanto louco, mas ao mesmo tempo que fez muito sentido com aquilo que estava vivendo. Nesse sonho, alguém me disse: “A vida não é tão simples assim”, e realmente não é… Penso nas palavras de Nietzsche, que tenho utilizado bastante para balancear com o Iluminismo exacerbado de alguns deuses, diz ele: “Como tornamos tudo claro, livre, leve e simples à nossa volta! (…) Como conseguimos desde o princípio manter nossa ignorância, para gozar de uma quase inconcebível liberdade”. Ora, essas palavras vão justamente ao encontro do que sonhei, ou seja, criamos um mundo simples, dialetizável, cientificizado, na ilusão de que assim poderíamos dominá-lo; entretanto, vamos percebendo que os nossos castelos de conhecimento estão construídos em bases pouco sólidas. Conversando com os meus colegas de faculdade, chego cada vez mais a conclusão de que o pedantismo é o esporte preferido de alguns “filósofos”, por trás de todo aquele conhecimento “pela glória do espírito humano”, repousa um imenso orgulho, impulso de castelos de marfim, digo isso, pois quanto mais chego no final do meu curso, percebo o quanto a gente é ignorante em relação à vida, às coisas e que os ditos “grandes”, são aqueles que julgam que a sua teoria é um molde perfeito da realidade, ao ponto de poder impôr o seu pensamento ao mundo, pretendendo, assim, transformá-lo. Para mim, quanto mais a filosofia se afasta da academia, mas ela se torna livre. Parece que algo estranho está acontecendo, a vida se mostra cada vez menos dominável, e nós, humanos, símios pensantes, vamos ocupando o nosso lugarzinho nem tão glorioso assim.
Lamentações Extemporâneas
03/05/2008 por Marcos