Hoje me acordei com o cheiro do café e uma única certeza: está chovendo. O cheiro de café pela manhã sempre me faz pensar de que perdi a hora para alguma coisa, talvez seja porque temos a sensação de que quem se acordou antes da gente já está há algum tempo acordado – quem sabe seja o nosso devir casado, devir família, devir vida a dois fazendo-se acontecer. Eu lembro de uma propaganda antiga do Café Haiti, que dizia: “Tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui” – e não é que isso é verdade; entretanto, a propriedade de ter um cheiro forte que invade os diversos cômodos de uma casa não é apenas do Café Haiti, mas de qualquer café. Bem, mas o café não é apenas uma fonte de “cheiros despertadores”, ele está presente na mesa de quem se põe a pensar, no meu caso um subterfúgio qualquer para o silêncio. Quando o café se apresenta enquanto filosófico se elimina as suas propriedades e o seu gosto, o pensador deixa de degustá-lo para refletir acerca de qualquer coisa, nesse caso, há uma certa negação do sentido – suspende-se o cheiro e o gosto. A cor do café permanece presente na reflexão, pois o filósofo não fecha os olhos para pensar, no máximo olha para cima e coloca a mão no queixo para apoiar a sua cabeça pesada de erudição. Além disso, o café é pretexto para encontros, não é fora do comum as pessoas convidarem alguém para sair dizendo: “Vamos tomar um café? Preciso conversar contigo”; com isso, o café esfria, perde o sabor, escurece e silencia – estou convencido que o cheiro do café é um barulho… Café para tudo, para nos deixar acordados, para nos tirar a ressaca, café para cá, café para lá… Aquele que busca constituir uma filosofia brasileira, deveria parar para pensar no café como objeto da reflexão filosófica, pois no nosso caso, o café também nos faz filosofia, sendo ele o pretexto do encontro com um interlocutor qualquer ou com a busca de si mesmo em um silêncio profundo.
—
*Por Favor, não levem a sério isso.