A definição de virtude de Aristóteles, aretê, nos soa estranho no mundo em que vivemos. Segundo o filósofo, virtude é o desempenho excelente de uma determinada função, ou seja, no caso do homem, a sua virtude é o excelente desempenho da razão. Mas se a nossa reflexão se voltar para os objetos do mundo, o que teríamos? No caso de uma faca por exemplo, diríamos que a sua virtude é cortar bem? No caso de um copo de água, seria matar bem a sede? E no caso de um banco? Qual a virtude de um banco?… A resposta não é tão simples. Seria o sentimento de conforto daquele que senta? Se for isso, poderíamos qualificar um banco virtuoso a partir do seu encosto, da altura que fica as pernas dobradas até o chão, altura das pernas do banco, altura do encosto até a base do tronco, etc; teríamos assim um banco virtuoso. Entretanto, a simples visão de um banco não é suficiente para determinar a sua virtuosidade. É preciso sentar, deitar, experimentar… alguns minutos, algumas horas. A simples dor nas costas, nas pernas, ou em outra parte do corpo, já é suficiente para tirar o estatuto de virtuoso de um banco. No entanto, a virtude de um banco, depende de quem senta: pessoas com bico-de-papagaio não estariam aptas para determinar a virtude de um banco, pois a dor nas costas já está pressuposta. Portanto, um teste perfeito, passaria por uma condição perfeita de nossa coluna vertebral. Ultimamente não tenho percebido bancos virtuosos, nos ônibus as minhas pernas ficam apertadas, na frente do computador o meu pescoço fica “levemente” declinado, o suficiente para me causar dores nas costas, ou seja, não há bancos virtuosos para mim. Contudo, bancos de praças geralmente nos proporcionam belas visões, bancos de ônibus não, pois o máximo que podemos sentir é um excitação ao ver o contorno entre o pescoço e o ombro de alguém, mas eu não sou o anjo de “Asas do Desejo”, nunca morri de amores por uma nuca ou um pescoço. Por isso, prefiro os bancos de praça. Nesse caso, a virtude está nos olhos de quem vê, que percebe que diante de si há algo interessante, portanto, nenhuma dorzinha nas costas é suficiente para tirar a virtuosidade desses momentos de fuga do tempo e contemplação.A virtude de um banco
03/04/2008 por Marcos
A definição de virtude de Aristóteles, aretê, nos soa estranho no mundo em que vivemos. Segundo o filósofo, virtude é o desempenho excelente de uma determinada função, ou seja, no caso do homem, a sua virtude é o excelente desempenho da razão. Mas se a nossa reflexão se voltar para os objetos do mundo, o que teríamos? No caso de uma faca por exemplo, diríamos que a sua virtude é cortar bem? No caso de um copo de água, seria matar bem a sede? E no caso de um banco? Qual a virtude de um banco?… A resposta não é tão simples. Seria o sentimento de conforto daquele que senta? Se for isso, poderíamos qualificar um banco virtuoso a partir do seu encosto, da altura que fica as pernas dobradas até o chão, altura das pernas do banco, altura do encosto até a base do tronco, etc; teríamos assim um banco virtuoso. Entretanto, a simples visão de um banco não é suficiente para determinar a sua virtuosidade. É preciso sentar, deitar, experimentar… alguns minutos, algumas horas. A simples dor nas costas, nas pernas, ou em outra parte do corpo, já é suficiente para tirar o estatuto de virtuoso de um banco. No entanto, a virtude de um banco, depende de quem senta: pessoas com bico-de-papagaio não estariam aptas para determinar a virtude de um banco, pois a dor nas costas já está pressuposta. Portanto, um teste perfeito, passaria por uma condição perfeita de nossa coluna vertebral. Ultimamente não tenho percebido bancos virtuosos, nos ônibus as minhas pernas ficam apertadas, na frente do computador o meu pescoço fica “levemente” declinado, o suficiente para me causar dores nas costas, ou seja, não há bancos virtuosos para mim. Contudo, bancos de praças geralmente nos proporcionam belas visões, bancos de ônibus não, pois o máximo que podemos sentir é um excitação ao ver o contorno entre o pescoço e o ombro de alguém, mas eu não sou o anjo de “Asas do Desejo”, nunca morri de amores por uma nuca ou um pescoço. Por isso, prefiro os bancos de praça. Nesse caso, a virtude está nos olhos de quem vê, que percebe que diante de si há algo interessante, portanto, nenhuma dorzinha nas costas é suficiente para tirar a virtuosidade desses momentos de fuga do tempo e contemplação.