Cartas Desesperadas…
Março 2, 2008 de Marcos

Uma carta tem como fim expressar o sentimento de angústia de não poder falar aquilo que se quer para alguém. Pelo fato de pressupor uma distância relativa a dois sujeitos, uma carta sempre vai querer dar conta de vários fatos - se possível todos - vividos em uma pequena parcela de tempo. A razão de uma carta é sempre o encanto, é receber a visita de alguém distante, que apenas diz: “Veja só, eu ainda estou vivo e lembro de ti… Veja só como eu estou… Ainda lembras de mim?”. Só é sincera aquela carta enviada sem ser passada a limpo, pois ela reproduz exatamente o diálogo - a voz é a caneta que transita pela folha de papel. Aquele que não envia cartas já escritas se perde em uma idéia maluca de ao mesmo tempo querer ser o sujeito que escreve e o que receberá, transferindo a sua imagem e consciência para um outro, e portanto, sendo a medida de todas as coisas… Quem não envia cartas já escritas tem a pretensão de sentir - tentar - aquilo que o interlocutor sentirá… Em um mundo que a tecnologia substitui o encanto, uma carta enviada para alguém dizendo apenas: “Oi, tudo bem?”, já guarda em si mesmo uma imensa beleza - a expontaneidade expressa em uma folha de papel -, e para o nosso mundo cada vez mais racional-tecnicista, uma carta escrita nesses moldes tem em si mesmo algo de revolucionário.
Porto Alegre, 14 de Abril de 2006.