Não há nada errado em correr e olhar o céu… a noite está tão linda! As pessoas cantam os tempos que passaram e os amores que não tiveram – a noite é dos solitários que não se apaixonam pois não há pessoas que se deixam apaixonar. O amor não é moeda de troca, que se confidencia, o amor é aquilo que se silencia, é suspiro por alguém que não há, é um constante jamais… O solitário sambista sai caminhando pelas ruas da cidade triste, que se acorda para o cotidiano – são 5 horas da manhã. Seus olhos cansados não querem ver os rostos de ninguém, pois eles são sempre inquisidores, eles condenam a vida de quem vive por viver. Os passos são assim sempre a procurar: um certo sorriso que disfarça as lágrimas que nunca escorrem do seu rosto, pois elas são silêncios, profundos silêncios… A saudade da noite é a constante do poeta sambista, que com o violão a tira colo percebe-se remoendo em si mesmo uma canção que nunca se efetiva, pois ela é a sua potência de artista e deve ser assim… contudo, a noite se vai, o silêncio retorna profundo, o dia se faz amanhã… e o seu silêncio retorna eterno.
Singela homenagem a Cartola, Noel Rosa a Ary Barroso.