Lembro que há uns dois anos atrás tentei pegar a “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer para ler. Lembro de não ter entendido nada, de não compreender que proposta era aquela que os próprios autores reconheciam ser muito pretensiosa. Entretanto, dois anos depois, um pouco mais “esclarecido”, pude revisitar essa obra que, como nenhuma outra antes, me pareceu tão atual – talvez seja a distância de tempo, apenas 63 anos, que em filosofia não significa quase nada. Na real os autores trazem uma questão que sempre me inquietou nesses meus poucos anos de vida: como o sistema pode tomar para si aquilo que, aparentemente, representa a sua destruição? Como criticar aquilo que ao ser criticado regozija-se, pois a crítica aumenta ainda mais o seu poder? E, ainda mais, como viver uma vida em um mundo onde a vida já não vive? Em um momento em que a moda, em que o pensamento “libertador” nos aprisiona cada vez ao mundo, uma perspectiva crítica, clama por uma não-linguagem, por uma não-estética, por uma não-ética, por uma não-filosofia, por uma negação da obviedade – daquilo que o pensamento pode expressar em argumentos… Fugir de tudo aquilo que pode ser facilmente apreendido pelo mercado, pela técnica – transcender a nossa própria racionalidade.
Perceber o projeto de Adorno, que entre os dois filósofos é o que mais conheço devido aos diálogos com um amigo meu, é conhecer um filósofo que tinha um profundo respeito por quem o lia, tendo em vista, a dificuldade de entendê-lo, o que exige demais do leitor, isto é, respeita esse em sua dignidade, incentivamento a transcender-se a si mesmo. Um autor que jamais sonhou em ser um best-seller, mas o contrário, quis ser livre e fugir para além da nossa limitação racional. A perspectiva da Teoria Crítica talvez seja tão atual e tão emergente nesse contexto de “final dos tempos”, talvez a nossa tarefa enquanto educadores seja: “Educar para que Auschwits jamais se repita”, isto é, educar para que a barbárie, que o terror jamais se repita, esse é o imperativo ético de todo educador crítico – que limpa o caminho para o pensamento, que tenta desacorrentar-se das amarras da produção, do consumo. Esse, mais do que nunca, deve investigar a vida, a sociedade, a ciência, a educação e buscar nesses “territórios”, em suas reflexões, centelhas de liberdade: abrir espaço, abrir espaço…
Entretanto, essa tarefa é extremamente difícil, pois todo pensamento livre, não é livre… A racionalidade instrumental, uma razão que apenas busca sobreviver, isto é, conformar-se a realidade, foi a escolha que fizemos – que fizemos? Ou que fizeram?… Toda filosofia, que tem se apresentado como uma nova filosofia, e que se tornou moda por essas bandas, se tornou presa do sistema, que defendendo uma volta aos “instintos”, negou a razão, representando, ao meu ver, não uma libertação, mas um diagnóstico da falência do pensamento, do desespero social, que faz as pessoas esquecerem que pensam, pois pensar, ir além da vida cotidiana, é uma tarefa dolorosa… O pensamento crítico, é em si angustiante, penoso, solitário e, por isso, livre… Negar a vida que não vive, talvez seja a própria afirmação da vida, trilhar um outro caminho: como um andarilho e a sua sombra… Esse talvez seja o peso que quem quer ser livre deve carregar.
Escrito em junho de 2007 .
Maravilhoso o texto.
Muita gente costuma repetir: “a liberdade é o que nos prende”, mas não pára pra pensar em tudo que essa frase representa e em sua verdadeira essência. Seu texto, realmente, ficou ótimo.
Se der, dê uma passada em meu blog.
Abraço.
Obrigado pelo comentário, acho que é isso que faz com que um blog pretensamento filosófico tenha sentido: o debate, o diálogo, o filosofar. Quando digo que o que discurso libertador virou moda, é que ele se tornou fetiche, palavra bonita em cartilhas partidárias, livros pedagógicos, etc. Acho que ainda precisamos pensar acerca da liberdade, e abrir caminhos para que ela efetivamente se torne possível. Vou visitar o blog sim.
Desse modo, conecto-me contigo no pensamento presente e passado… construímos um universal: http://poars1982.wordpress.com/2008/01/24/sombra-e-destino/
só falta desenvolver o conceito de verdade viral, mas o interessante seria fazê-lo com o andrés, em um bar…
A propósito, porque não postar nossa ‘poesia coletiva’??
abraços.
Havia me esquecido da poesia coletiva!!!!
O que é filosófia instrumental
Oi, Paula. Não usei o termo “Filosofia Instrumental”, mas “Racionalidade Instrumental”, que, ao meu ver, nada mais quer dizer do que a preocupação por métodos mais eficientes de dominação da natureza, da vida.