Apenas uma visão sobre o Tropa de Elite
Iniciar um texto dizendo que o filme Tropa de Elite suscitou um grande debate na sociedade brasileira seria uma trivialidade; entretanto, mesmo sendo trivial, não dá para negar isso. Basta ler jornais, revistas, assistir programas de televisão, etc. De um lado críticos paranóicos, de outro críticos falaciosos. Digo isso, pois li alguns textos, mas dois particularmente me chamaram a atenção. Um deles foi o texto de Ivan Pinheiro chamado “Tropa de Elite: A criminalização da Pobreza”, onde o autor afirma que o filme é uma conspiração da direita do país, o que beira um discurso que mais parece de movimento trotskista da década de 70. Outro texto foi o de Reinaldo Azevedo chamado “Capitão Nascimento bate no Bonde do Foucault”, esse era terrível, pois comparar Immanuel Kant ao Capitão Nascimento é uma bestialidade – na real acho que isso foi mais por pedantismo do que por fundamentação “moral” do seu texto, até porque Azevedo mostrou que é um péssimo leitor de Kant, explico porque. Primeiramente, acho que o autor tentou aplicar uma formulação do Imperativo Categórico, que diz que “Devemos agir de maneira que a máxima de nossa ação possa ser universalizada”, isto é, no caso de um usuário de maconha, o máximo que ele podia fazer, se colocando o imperativo, seria dizer “será que eu gostaria que todas pessoas comprassem maconha”, isso seria a universalização, onde a ação poderia, no máximo, desencadear uma sociedade de maconheiros. O que Azevedo faz é uma falácia de indução, a mesma que diz que quem compra uma lata de coca-cola financia a Guerra no Iraque, isso é uma generalização, mas é precipitada demais. Naquele caso, falta uma premissa no argumento: é preciso provar que quem compra baseado é causador da violência na Favela, isso é outra coisa bem diferente – mas não é o que podemos esperar de um artigo de Revista… Podemos dizer que Nascimento é um policial que age por dever, mas de filosofia não sabe nada!
Eu particularmente não vi muitas pessoas falando do filme enquanto um filme, não enquanto uma leitura sociológica da realidade. O que tenho para dizer é que eu achei um filme muito ruim, que subestima quem vê, com aqueles discursos muito senso-comum, que trabalha sim com a idéia de super-herói que caça os bandidos – o que podemos esperar de cenas de invasão em favelas ao som de Tihuana, não nos faz lembrar cenas do Robocop atacando os inimigos, ou do Rambo no Oriente médio atrás de terroristas? Pois é, não gosto de filmes de super-heróis, prefiro outras coisas que me façam ir além do simples “ver”… Todavia, poderíamos acreditar que José Padilha se utilizou da mesma ironia que Lars Von Trier se utiliza em “Querida Wendy”, onde a música e a cena faz com que tomemos partido dos meninos que querem apenas tomar um café e causam um tiroteio com a polícia em uma praça… Ou quem sabe, inspirado por Tarantino, se utilizar de cenas de violência ao extremo, uma banalidade da violência… talvez seja isso – só para fazer justiça ou diretor Padilha.
Acho que mesmo assim, não podemos criticar o autor por ele ter feito uma leitura “falsa” da realidade, por uma simples razão, aquilo é um filme, e um filme é apenas uma ficção, por mais que ela tente dizer algo da realidade. Acho que o que está em jogo é que as pessoas não conseguem distinguir ficção da vida real. O filme, enquanto um produto cultural, é um fato histórico no Brasil, pois depois dele não precisamos mais de seriados da SWAT, onde torcemos para os policiais matarem os bandidos. Agora temos heróis brasileiros que são parte da realidade brasileira: a polícia brasileira, com as suas práticas…
Agora, o que devemos pensar são as razões que fazem alguém ir no cinema e aplaudir a violência, pois parece que, nesse caso, estamos diante do “justicismo” que corre em nossas veias, tomando o filme por esse lado, como um retrato da realidade, acho que devemos nos perguntar: por que as pessoas querem que aquilo aconteça? Quais as razões que levam alguém dizer que tem que linchar bandido, estuprar estuprador em presídios, e etc, como Luiz Eduardo Soares menciona em seu artigo chamado “Aplausos à violência?”, onde ele nos coloca a questão acerca do elogio à violência que o filme instigou nas pessoas que o assistem. Talvez seja esse o verdadeiro e mais sensato debate que devemos nos voltar, sem moralismos, falácias, e conflitos ideológicos medíocres.
Para concluir: Acho que há questões profundas que devemos tentar responder: Por que as pessoas, para ter uma vida privada tranquila, aprovam à barbárie? Quem é que coloca drogas na favela – a resposta do Azevedo não vale -? Por que as pessoas não sabem distinguir ficção da realidade? Por que as pessoas procuram drogas? Por que esse debate acirrou os ânimos da direita e da esquerda? Quem fará justiça à José Padilha?… O que acho mais certo é que o filme, suscitando um debate acerca da violência, nos colocou a questão acerca do potencial de barbárie que corre em nossas veias… De onde vem isso? Essa é a questão mais profunda de todas.
Referências:
Aplausos à Violência? (Luiz Eduardo Soares) http://www.luizeduardosoares.com.br/lesnovo/umanot.php?id_noticia=99
Capitão Nascimento bate no Bonde do Foucault (Reinaldo Azevedo)
http://veja.abril.com.br/171007/p_090.shtml
Brasil – Tropa de Elite: A criminalização da Pobreza (Ivan Pinheiro)
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=30050

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