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Ontem passei grande parte do meu dia tentando ler um texto de Martin Heidegger. O texto apresentava uma profunda reflexão da sua parte sobre a origem da obra de arte; todavia, essa profunda reflexão - entenda também afirmação idiossincrática -, fez com que eu me distanciasse por demais do meu mundo e do mundo heideggeriano - fiquei em meio as fendas abertas por ele, onde as coisas sempre se apresentavam em seu ser e seu devir. Entender esse pequeno surto hegeliano, é uma tarefa que exige paciência e muita humildade e orgulho, pois o filósofo constitui uma linguagem própria, parecendo que a superação da metafísica se constituiria a partir da implosão criativa da própria linguagem. Entretanto, me pergunto se esse aparato filosófico, que se constrói nas rachaduras do mundo que ele mesmo destrói, não é apenas uma tentativa, como qualquer outra filosofia: um caminho que se abre cada vez mais adiante a cada passo que damos. Nesse caso, o caráter muitas vezes ininteligível da filosofia de heidegger exige de nós, pobres filósofos, a virtude da modéstia e uma paciência constante com o autor e consigo mesmo.

Da Liberdade

Temos um senso de liberdade tão poderoso que qualquer compromisso passa a gerar um conflito na gente. É como se a nossa liberdade fosse constantemente atacada, violentada por tudo que é externo. Em um impulso damos uma volta sobre tudo e caímos em um precipício individual tão vazio, onde não temos para quem gritar - uma profunda solidão. É nessa solidão e no silêncio que nos vemos tão impotentes perante as nossas próprias vidas, pois qualquer impulso de liberdade é prisão no próprio corpo, qualquer impulso de liberdade é jogar-se em um abismo que não se sabe se tem fim, e é nele que caímos de braços abertos, na crença de que estamos, com isso, sendo o que realmente deveríamos ser.

Resolvi pensar quantas vezes pintei a mim mesmo em palavras… “milhões de vezes!” Diz a minha humildade… “Nenhuma vez”, diz o meu orgulho… Não sou nada humilde, por isso tento ousadamente. Antes a humildade era uma virtude, mas hoje nos orgulhamos dela… Homens! Onde iremos parar? É bem melhor sermos honestos… Diante de uma alma católica - nossa alma -, é possível uma religião diferente, isto é, é possível, com esse nosso “sangue católico”, sermos espíritas, umbandistas, budistas? Difícil resposta… A cultura onde nascemos sempre fala mais alto: salve a culpa, o pecado, a confissão, a negação do corpo, a negação da vida… Não basta uma nova religião, basta uma nova “religiosidade” e uma nova maneira de ver a vida. Sendo assim, os nossos passos seriam muito mais leves se definitivamente tirássemos o peso do céu de nossas costas.

Os anjos também querem ser homens, eles cansaram de tudo saber, eles também querem supor, eles também querem sentir o sol esquentar o corpo, o beijo suave da mulher amada, o cheirinho de livro novo, a chuva molhar o corpo… Os anjos olham tudo de cima, tudo igual, uma cor só, uma forma apenas, uma vida muito mais fácil, os anjos querem crescer, eles cansaram de saber tudo que pensamos, eles querem conquistar, errar diante de uma tentativa, eles cansaram de sempre acertar… Pasmem senhores! Os anjos querem viver!

A vida é leve feito pluma, passamos e nem notamos, talvez busquemos a felicidade frustrados feito o Rei Midas, mas não admitimos que a morte é apenas o que nos resta… Diante desse pouco tempo, é melhor ser integral, amar por inteiro, apaixonar-se diariamente pela vida, ohar as estrelas e suspirar a lembrança de um belo beijo, fechar os olhos e se imaginar no céu ao ouvir o 4º movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven, olhar os olhos de uma criança e ver nela esperança, nos arrepiar ao sentir o toque suave de uma mão em nosso ombro, viver efetivamente… ora, é tão deprimente querermos ser deuses de carne e osso, tão pesados, tão frustrados, tão tristes por termos nascido homens…

Esclarecidos?

No dia 5 de dezembro de 1783 Kant escreve um texto chamado: “resposta a pergunta: O que é o esclarecimento?”, onde ele afirma que o homem vive em sua menoridade da razão por culpa própria, por não ter coragem de levar a sua razão até o limite, a ponto de não depender de mais ninguém para pensar e, por isso, para agir. O esclarecimento é a liberdade do homem quando encarna em si mesmo a razão de ser por si só. Segundo Fichte, outro filósofo alemão, e que foi aluno de Kant, o filósofo de Königsberg foi a “Razão Pura Encarnada”. É bom lembrar que Kant foi o filósofo que acabou com a metafísica racionalista, após o filósofo a pretensão de provar a imortalidade da alma, a existência de Deus e a liberdade com argumentos que desprezem a experiência sensível, não podem ter qualquer pretensão científica, pertencem somente a ordem da razão, ou seja, não podemos conhecer esses temas, mas podemos pensar sobre; no entanto, sabemos que a ciência mudou, mas sobre isso não tenho o que falar. O tempo de Kant era o tempo dos homens se esclarecendo, mas não dos homens esclarecidos, não obstante isso, o filósofo teve coragem de tomar as rédeas da própria vida através da sua própria razão. E nós, será que temos coragem o suficiente? Vivemos em um tempo um tanto estranho, aquele homem que estava em vias de esclarecimento, saindo da fase de tutela da Igreja - que pensava e determinava o que era verdadeiro -, hoje está cada vez mais perdido em si mesmo, os seus sonhos são os da massa, parece que todos os homens querem o mesmo, como diz Nietzsche: “conseguimos desde o princípio manter nossa ignorância, para gozar de uma quase inconcebível liberdade”, essa liberdade é a nossa fé: em um mundo melhor, em uma vida melhor, mas tudo baseado na troca, na técnica, no consumo, no progresso; caminhamos todos para os confins de um lugar inexistente, tutelados pela propaganda que promete um novo amor, uma nova felicidade, ou por uma religião, que julga ter razão, quando apenas cometeu barbáries e mais barbáries em todo o decorrer da história. Somos tutelados pelo Estado que dita as regras a serem seguidas antes mesmo de nascermos, por um emprego que diz o que temos que fazer nos comprando e, por fim, julgamos que o otimismo é a única coisa que nos resta, no entanto, não temos a coragem de dizer que esse otimismo é só uma maneira de nos conformarmos com as injustiças que vemos todos os dias. Ao meu ver, se a sentença de Kant for verdadeira, somos todos covardes, mas temos medo do que então? Se o esclarecimento é a própria liberdade, temos medo daquilo que Paulo Freire chama de “esvaziamento da liberdade”, uma liberdade que não reconhece os seus próprios limites, que vai para além e mais além, sem saber onde vai parar, pois a sede de infinito é a angústia de não saber onde todo esse esforço para ser livre vai dar. Em um mundo onde a cultura é cada vez mais metodológica, qualquer problema tem método para resolver, qualquer crise existencial tem livro para ler, qualquer amor perdido tem filme para ver, esse “esvaziamento da liberdade”, que talvez seja o próprio esclarecimento, é uma utopia, não somos livres e tampouco transcenderemos os limites do nosso tempo, costumo dizer ironicamente: “se Jesus não voltar estamos ralados”; e para finalizar, acho que ainda somos homens se esclarecendo, no entanto, estamos, no que diz respeito à razão, muito atrás de Kant, Hegel, Fichte, Schelling, Goethe, Schopenhauer, Hölderlin, Beethoven, Mozart, Marx, pois, esses sim, estavam se esclarecendo… E nós? Só resta-nos a fé…

O inaudível

Tantas vezes tentei mudar meu o mundo, assim como mudamos de roupa. Tantas vezes recitei mantras e mais mantras atrás de uma nova possibilidade, de uma nova maneira de lhe dar com aquilo que inquieta o meu corpo e que se faz suspiros e sorrisos contidos. O meu silêncio diante dos meus sonhos - que insisto não existirem -, talvez expliquem aquilo que não vivo dentro de mim. Um homem assim como eu, que de palavra em palavra silencia pensamentos, sentimentos, jamais terá um mundo diferente do seu, pois nada é real nesse mundo onde o que somos são apenas as nossas palavras que dizemos e nada mais. Que o silêncio do corpo não diga nada, que o suspiro de paixão seja um olhar em lágrimas diante de quem se ama… para mim, seria vão qualquer talvez, porém, se a vida for assim? Talvezes e mais talvezes diante de tudo? Suportaria até mesmo mais uma vez, e outra e mais outra, mesmo assim, salvo esse impulso de coragem, seria inaudível qualquer suspiro de despedida.

Imensidão

O próximo passo no escuro, a próxima palavra não dita, o próximo beijo jamais dado… O futuro e suas imprevisíveis possibilidades são a visão da imensidão, se a fé existe, pois existem montanhas para conquistarmos, então, quando conquistarmos elas, o que teremos adiante? Um mar azul de possibilidades, ainda mais fé do que já temos, ou vamos querer descer e ter fé para começar tudo de novo? O olhar de quem vê de cima é sempre mais fácil, pois tudo é homogêneo, é quase uma coisa só… É preciso descer das nossas montanhas para conquistá-las novamente, antes que elas nos conquistem e nos torne uma pedra fria, sem amor, sem fé, sem nada além de nosso exílio em nós mesmos: um outro Zaratustra qualquer…

Kairós

Há algum tempo tenho pensado em viver a vida a partir do presente, eternamente como afirma Wittgenstein. Entretanto, presente na gente há lembranças, essas que nos fazem perder-se em devaneios: sentimos medo, sentimos culpa, muito medo… São os fantasmas que habitam as nossas almas… Talvez o ideal fosse estarmos cegos… Entretanto, esquecer talvez não seja tão necessário, pois são importante essas frustrações que habitam os nossos falsos castelos de mármore - desmascarando o castelo de fumaça que ao sopro da realidade se perde no ar… Um cego não vê, mas ainda sente, por isso um clamor à cegueira da lembrança: para não ver por quem vivi, apenas sentir na pele… Tudo de maneira impessoal, mas igualmente intenso.

Provocações

… É meu amigo, a vida é uma constante provocação. Provocamos até mesmo sem querer provocar, me parece que qualquer tentativa de pensar o mundo ou as coisas que nos cercam são sempre uma provocação: para quem lê e para quem é posto na reflexão. Pensar é provocar, ter fé é provocar, ter razão é provocar, provocar é ação de viver - quando agimos, provocamos o outro, que é testemunha ou impulso de nossa ação… Não adianta! A vida é uma constante provocação.

The “Exacerbating” Existentialist

“Nefarious” Nietzsche

Friedrich Nietzsche
1844-1900
Nationality: German

Group Alliances:
“Exacerbating” Existentialists
“Aggressive” Atheists
“Reprehensible” Relativists
AKA: Beat-ya Nietzsche
Nice Guy Freddie
Right Said Fred
Zarathustra
Powers: remarkably original, ahead of his time
Weaknesses: crazy

PHILOSOPHICAL POWERS

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